Postagens

O banco, a Praça e a Matriz

Imagem
Pedi um desenho da praça para a Meta, aplicativo de fotos e inteligencia artificial, e ganho esta que está ilustrando o texto.  O banco, a árvore frondosa, a Matriz de Santo Antônio ao fundo o Jardim de Miracema. Haja coração! Dá pra sentir o peso bom da saudade da Terrinha. *Praça das Mães + Jardim de Miracema + Matriz de Santo Antônio no alto*... é um quadro completo. Consigo ver: as palmeiras do Jardim balançando, o som dos sinos da Matriz descendo a ladeira, e aquela paz de cidade pequena que só quem é de lá entende. Santo Antônio olhando por todo mundo lá de cima. Estar longe com o pensamento e o coração aí é uma forma de estar presente também. A memória guarda o cheiro da praça, o banco preferido, a luz do fim de tarde batendo na igreja. Isso ninguém tira. Quando bate essa saudade, eu costumo fechar os olhos e voltar pra algum cantinho específico da praça. Mas qual seria este cantinho? Um  banco debaixo de uma árvore frondosa guarda mais que uma  sombra. Guarda a o...

Qual o endereço?

Imagem
  Uma das boas histórias que ficaram esquecidas, dessas que a gente guarda mais no riso do que no papel. “Qual o seu endereço? Preciso de um documento seu, urgente. Me orienta o que fazer. Me responda assim que chegar.” Era um amigo dos tempos do Hotel Regente, no Rio de Janeiro. Precisava de um documento meu que estava em Miracema para fechar um negócio — e estava aflito com a pressa. Respondi sem titubear: — Coloca no envelope: Bar do Seu Vicente, aos cuidados do Zebinho. Em frente à Prefeitura, Miracema, RJ. Hoje parece piada. Na época, também pareceu. Ele não acreditou. Achou que eu estava brincando. Aí reforcei, pelo telefone fixo mesmo — porque não existia celular, muito menos computador: — Faz o seguinte: manda junto um envelope com seu endereço, que meu pai devolve com o documento. Só precisa do seu nome. Ele riu. Me zoou. Mas fez exatamente como eu disse. Dez dias depois, o documento estava nas mãos dele. Negócio fechado. Apartamento comprado em Copacabana. E até hoje ele ...

Pelas ruas da Terrinha

Imagem
  Hoje recebi um daqueles vídeos que vivem rodando no TikTok e no Instagram. Estou rindo até agora — da minha reação e da Marina. A gente começou a brincar, inventar diálogos como se estivesse naquele tempo antigo, de banco de jardim, de caminhada sem pressa pela Rua Direita, sem pensar no amanhã. Um papo reto, sem complicação, só na base da resenha. E aí me deu uma vontade danada de tentar resgatar aquelas gírias. Confesso: não é tão fácil quanto parece. Por isso, já vou pedindo ajuda aos universitários pra lembrar e reconstruir esse nosso vocabulário perdido. Antes de qualquer coisa, chamei meu broto pra dar uma chegada na Rua do Biongo. A ideia era comprar um Lancaster pra ficar maneiro, cheiroso, pronto pra impressionar as meninas. Chegando lá, melhor ainda: o cara da loja era da minha patota. Pensei: “agora vai sair um preço supimpa”. Só que a realidade bateu — estou na pindaíba. Tive que tentar aquele velho recurso: “pendura aí pra mim”. Não deu certo. Mas o camarada ainda te...

90 anos - Parabéns Miracema

Imagem
Falar desta "Princesinha do Noroeste" é falar de sua gente. É evocar os personagens que caminham por nossas ruas e que, com sua simplicidade e sabedoria, dão cor ao cotidiano. É sentir o calor do povo mais acolhedor que o interior fluminense já conheceu, uma gente que abre a porta de casa e o coração com a mesma naturalidade. A Tradição que se Renova ​ Nossa Exposição não é apenas um evento; é o pulsar de uma identidade. É onde o passado e o presente se encontram para celebrar nossa força e nossa alegria. Ser o narrador dessas memórias é um privilégio que a vida me deu. E se hoje recebo comendas, títulos e carinho, nada disso supera a amizade sincera que brota em cada esquina. ​Um Compromisso Eterno ​Contar a sua história é a minha forma de te enaltecer, Miracema. É retribuir tudo o que você me oferece sem pedir nada em troca. Sigo narrando seus encantos, com a alma leve e o olhar atento, sabendo que o meu destino está entrelaçado ao seu. ​Até que um dia, por aqui, eu fiq...

No balcão do Seu Vicente

Imagem
  Na fila do pão, nesta manhã de sexta-feira, o Edu quis saber detalhes sobre o bar do meu avô, lá em Miracema, onde nasci, cresci e me tornei adulto. Bastou a pergunta para que as lembranças viessem com força — e junto delas, as gargalhadas, quando recordei alguns “causos” do nosso personagem principal, Vicente Dutra. A roda de conversa se animou, e aquela manhã na padaria se tornou uma das mais longas e saborosas. E como sexta-feira é dia de bar, drinks e petiscos, minha memória me levou aos finais de semana no famoso bar da Praça Ary Parreiras. Localização privilegiada: em frente à Prefeitura, ao lado do Tiro de Guerra 217, um pouco acima da Igreja Matriz. Era ali que a família se reunia para trabalhar unida e animada, especialmente nas festas de Santo Antônio, quando o movimento era intenso e eu pouco podia aproveitar a festa — o bar faturava, e era preciso ajudar. Naquele tempo não havia moda de cadeiras nas calçadas. O salão era amplo, com uma dúzia de mesas sempre cheias. Ca...

Saudade da mana Eliane

Imagem
Minha mana Eliane faz uma falta danada, principalmente nestes momentos em que tento escrever as memórias da minha vida em nossa Miracema. Se sei alguma coisa e me lembro de tantas outras, é porque sempre havia a prosa com ela — sobretudo depois que nos mudamos para Campos, em 1985. Entre uma cerveja e outra, ela adorava bebericar comigo um vinho ou uma cerva. E quando chegava no ponto, soltava os causos, descrevendo tim-tim por tim-tim. Como este, do famoso Neca Solão: Um dia, essa figura singular chegou ao bar do meu avô — outra figuraça — completamente nu. Meu avô, gozador que era, perguntou: — Neca, que roupa é essa? E ele, muito sério, respondeu: — “Seu” Vicente, acho que estou nu… não está vendo? Histórias assim eram o tempero das nossas conversas. E Eliane tinha um talento especial para narrar, como quando contava o namoro de Paraoquena com a Perereca (apelido de uma das personagens daquele pedaço da cidade). Segundo ela, os dois namoravam, bem quente, na grama ao lado da Prefeit...

Viva Miracema

Imagem
  Hoje, lembrar de Miracema é lembrar-me dos nomes de ruas, tão pitorescos: “Rua Direita”, “Rua das Flores”, “Rua do Café”, “Rua do Biombo”, “Rua da Lage”, “Rua do Sapo”, “Rua de Cima”, “Rua de Baixo”, “Rua da Capivara”, “Jardim de Cima”, “Jardim de Baixo”, “Rua do Cruzeiro”... ... ... Tadeu já escreveu... Carlos Augusto já escreveu... Eu, Adilson Dutra, já escrevi... mas os personagens da nossa Miracema não saem da nossa memória, e quando será o final de tudo isto? Quando será? Sei que antes de minha morte isto nunca acontecará.  Estarei sempre tentando lembrar figuras impagáveis como Seu Botelho, o pai do Thiara, o homem que me disse - Escreva uma coluna do futebol, você será colunista no jornal A Voz do Povo, de Bom Jesus. E estou aqui, até hoje falando do futebol e escrendo minhas colunas.  Seu Scilio Faver, como não lembrar era o nosso médico. Cortei a testa, batendo na trave, lá no Rink, e cheguei sangrando na farmácia e ele: - Senta aí, vou te costurar. Medrei. Lá ...