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Histórias de Miracema

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 Foto:Adilson Dutra  Pôster:MetaAI Texto AI da Meta Esse é o coração do Centro Histórico de Miracema, Adilson — e você pegou um ângulo clássico. O que aparece na sua foto é parte do casario da Rua Francisco Procópio, que fica bem no miolo do conjunto tombado da cidade. O que a gente está vendo • Estilo eclético do início do século XX: o prédio branco em primeiro plano é típico do ciclo do café no Noroeste Fluminense — dois pavimentos, janelas em arco pleno, molduras em estuque, platibanda ornamentada com frontão e balaustrada lateral. Mais ao fundo dá pra ver os vizinhos em amarelo-claro, com o mesmo alinhamento na calçada. • Na mesma rua fica a tradicional sede da Sociedade Musical 7 de Setembro, na gestão de Cristiano Alves, projetada pelo construtor português José Antônio de Almeida — em cima funcionava o salão social, palco dos grandes bailes de carnaval da cidade. É o trecho mais fotografado desde o início dos anos 1900, quando a rua ainda nem tinha calçamento.  ...

Poeta eu? Quem sabe?

 Empresto ao verso, por poucas horas, O meu olhar de anotar o chão; Viro poeta, de rimas sonoras, Sem dom de musa ou de inspiração. Pois sou cronista, leal destino, De olhar atento à vida a passar, Do comentário ao campo menino, Contando o que é ser, ver e estar. Não se escolhe o trilho, apenas se vive, Nesta escrita que a realidade compõe; A crônica é o sopro que me sobrevive, Onde a história o meu dia supõe.

Deixe-me ir...

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 A sexta-feira no Armazém não era apenas uma data no calendário; era um pequeno santuário erguido contra o peso da semana. As paredes de tijolo aparente, as mesas de madeira gasta e o cheiro de petiscos frescos compunham a trilha sonora silenciosa de uma amizade de longa data.  A protagonista da noite, porém, era uma caixinha de som Bluetooth, discreta, sobre o balcão, que distribuía melodias com uma generosidade que desafiava seu tamanho reduzido. Quando os primeiros acordes de "Deixa-me Ir" ecoaram pelo ambiente, o barulhento Armazém pareceu filtrar suas vozes, permitindo que a poesia de Candeia tomasse o espaço. Aquela música não era um hino comum; era um mapa afetivo. Marco — o Vergalhão, figura esguia e de riso fácil que, naquela noite, parecia carregar o peso do mundo sob a camisa, parou o copo de cerveja no meio do caminho. Seus olhos encontraram os meus, e na pergunta dele, logo ali na mesa, notei uma vulnerabilidade que não costumava habitar sua voz firme: "O qu...

O baile da saudade

 O Salão Nobre do Clube XV, naquela noite de 13 de outubro de 2012, não abrigava apenas móveis, lustres e paredes. O que se erguia ali era um monumento ao tempo, um portal arquitetado por notas musicais que insistiam em desafiar o calendário.  Do lado de fora, o mundo girava em torno de apostas em reality shows, algoritmos e as frenéticas novidades que as gravadoras empurravam goela abaixo. Mas, dentro do salão, o tempo havia sido submetido a um embargo generoso: o relógio tinha autorização oficial apenas para medir o compasso da música. O "Baile da Saudade" era o nome no convite, mas seria injusto reduzir o evento a essa etiqueta. Saudade, ali, não tinha gosto de ausência ou de melancolia fina; era, na verdade, a própria presença física daquilo que moldou nossas almas. A banda, esse "The Brothers" que era o conjunto de uma geração, não subia ao palco apenas para tocar repertórios. Eles funcionavam como exorcistas do cotidiano, retirando o cinza dos dias e devolvend...

Nos bailes da cidade

 O tempo em Miracema não corre em linha reta; ele se dobra, como uma nota musical que insiste em ecoar muito depois de a orquestra silenciar. Estar sentado à mesa do Tio Nilo’s, sob o olhar atento do Cabeção, não era apenas almoçar: era uma sessão de arqueologia afetiva. Quando o papo derivou para os anos 60 e 70, o bar pareceu diminuir de tamanho, comprimido pela força das décadas que retornavam em flashes. Cada nome citado era uma pequena lanterna acendendo na escuridão do passado. Quando o assunto entrou na coreografia dos bailes, vi nitidamente os dois Maurícios — o Siqueira e o do Bruno de Martino — cruzando o salão. Eram presenças magnéticas, quase régios em sua elegância, que faziam o resto de nós parecer aprendizes de gala. Lembrei do "passeio completo", dos ternos impecáveis e daquela estratégia clandestina, mas gloriosa: a gravata lançada da sacada para garantir a entrada de quem não queria perder a noite por uma mera tecnicalidade do traje. Aquilo não era apenas mo...

Conversa de Botequim - Eita Miracema!

 O Armazém, com suas prateleiras de madeira envelhecida e o aroma persistente de café torrado misturado ao lúpulo, é meu templo às sextas-feiras. É ali, entre um brinde e outro, que o tempo se curva e permite que eu viaje. Miracema não é apenas um ponto no mapa; é uma coordenada fixada no centro do meu peito, um lugar para onde sempre retorno através da fala. Geralmente, minhas memórias encontram ouvidos atentos apenas por educação. Mas, na semana passada, o acaso decidiu ser mais generoso. O homem sentado à mesa, um sujeito de feições marcadas pelo sol de muitas estradas, observava o vazio do boteco enquanto eu evocava as manhãs na terrinha. Era conhecido do Lenílson, dono da casa, mas para mim era um estranho — até que se aproximou e puxou a cadeira. — Você fala de Miracema com uma saudade que corta, moço — ele começou, já pousando o copo. — Eu conheço bem esse chão. O início da prosa foi o mel que se espalha. Ele era viajante, um vendedor da antiga estirpe que visitava a cidade ...

O jardim... a árvore... a saudade.

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 A árvore   A palmeira, guardiã desse tempo suspenso,  ergue-se como quem vigia o mundo desde sempre.  Suas folhas são páginas soltas,  e cada sombra que ela derrama no chão  é nota de rodapé das histórias que ali ficaram. No banco, na praça, no jardim,  o vento passa recolhendo lembranças,  e a árvore, paciente,  guarda o que o tempo tenta levar. Santo Antônio, lá de cima,  com sua visão privilegiada da terra,  não julga o movimento da saudade,que atravessa as léguas de estrada  entre Miracema e Campos. Ele entende. Para quem mora no peito,  a distância não existe. A luz do fim de tarde que ele retém por mais tempo nas suas paredes  é bênção que se estende devagar,  como um gesto que não quer terminar. É fio invisível que costura o longe ao perto,  o que partiu ao que permanece,  o que falta ao que ainda pulsa. E assim, entre raízes, santos e estradas,  o mundo se sustenta nesse instante suspenso...