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Mostrando postagens de março, 2026

De Miracema Para o Mundo

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  CAPITAIS QUE ME HABITAM Desde 2005 venho andando pelas estradas do mundo — e, curiosamente, elas também passaram a caminhar dentro de mim. Tudo começou com uma viagem à Europa, prêmio por um trabalho realizado para a ESPN Internacional. Era para ser apenas uma conquista profissional. Acabou virando um vício. Ou melhor, um destino. De lá até 2025, foram 23 países visitados. Em apenas três deles — Eslovênia, Marrocos e Paraguai — não conheci suas capitais. Nas outras vinte, deixei algo de mim… e trouxe muito mais de volta. Este não é um guia turístico. É um álbum de sensações. Começo por Paris, onde estive quatro vezes — e nunca foi suficiente. Em Montmartre, entre artistas e sonhos espalhados pelas calçadas, entendi por que a chamam de Cidade Luz. Não é só pela iluminação. É pela forma como ela acende algo dentro da gente. Lisboa veio depois — ou melhor, voltou. Em 2015, revisitei o Chiado com mais calma, como quem relê um livro já amado. Ao lado de Fernando Pessoa, no Café A Bras...

Qual o seu preferido?

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      OS BANCOS DA PRAÇA Alguns de vocês — ou talvez quase todos — lembram e sabem de cor a letra da música, sucesso de Ronnie Von, de autoria de Carlos Imperial, “A Praça”.  Tenho certeza absoluta disso. E foi exatamente por isso que, após ler e ver as fotos postadas pela mana Eliane lá no Facebook, me peguei, sem perceber, cantarolando baixinho, aqui na minha poltrona favorita, a canção em questão. Alguns devem estar se perguntando — especialmente os que não nos acompanham na rede social — que fotos são essas e de onde surgiu essa vontade de cantar sozinho.  Explico. A mana Eliane publicou imagens dos bancos do Jardim de Miracema — aqueles mesmos onde me sento sempre que por lá apareço, seja para ler o jornal ou simplesmente para deixar a mente vagar pelas lembranças da infância e da juventude. Vi, revi, pensei… e repensei no que escrever, no que dizer, ao perceber — ao vivo ou através das fotografias — o quanto de saudade habita aqueles bancos da praça. Sauda...

O tempo voa 40 anos, já?

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                          Lá se vão quarenta anos  São quarenta anos de Campos, que lá em 1985 ainda não incluía “Dos Goytacazes” em seu nome. De lá para cá, muita coisa mudou — tanto aqui quanto na minha Miracema. Já existiam as piscinas, mas o grande salto da natação ainda acontecia no poço da Usina e na descida do ribeirão Santo Antônio. Alguns chamados “poços ideais” existiam por ali, mas hoje estão praticamente secos. Que maravilha! Era o poço do Santo Antônio, os banhos no Conde, na Lagoa Preta e no famoso Moura. Uma diversão barata, com algumas aventuras, ao lado de rapazes e, às vezes, moças que faziam parte da nossa curriola — no bom sentido da palavra. Andar pela Rua Direita, do lado direito de quem subia, após o cinema das seis aos domingos, a domingueira do Aeroclube… Sim, ainda vi de perto! Foi ali que aprendi a bailar decentemente, como ainda faço até hoje. Havia também as matinês nos Cines Sete e Quinze...

Adilson & Adilson

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  Este meu gosto pelos dobrados e pela música me levou a implantar, na Banda Marcial do Colégio Miracemense, uma inovação. Dizem que copiei de algum lugar… mas nada disso. Apenas vi a Banda do Corpo de Fuzileiros Navais — a melhor do Brasil — tocar daquela forma e pensei: por que não? Chamei então o meu xará, Adilson Cagiano, excelente baterista, e propus o desafio: fazer o mesmo na banda do colégio. Ele topou na hora. Ensaiamos às escondidas por alguns dias, até termos certeza de que daria certo. E deu. Entramos na Rua Direita, naquele 3 de maio inesquecível, tocando o Tema de Lara em ritmo de marcha. A bateria veio junto, firme, ajudando a sustentar aquele ritmo novo. Foi, dizem — e eu concordo plenamente —, um sucesso tremendo. Depois do Tema de Lara, vieram outras canções famosas. O êxito daquela inovação me levou a estudar mais, a me aventurar na escrita de partituras — coisa que, confesso, eu detestava. Mas valeu a pena. A dupla Cagiano & Dutra marcou seu tempo nos desfil...

Sollon e Cartola

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     Conversa com Cartola (Outubro de 2005) Quatro horas da tarde. Lá fora, o sol forte. Aqui dentro, o ar refrigerado no limite e, na vitrola — ou melhor, no som — um disco de João Gilberto toca em volume médio, motivando este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet — sua nova companheira — e me recuso, por ora, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. — É pra você! — grita Marina. — É o Solon. Bingo. Era exatamente o que eu precisava para traduzir certas canções de Cartola. Cheguei até a pensar em ligar para o Nascimento, lá em Miracema… mas Solon veio na hora certa. — Fala aí, amigo velho. — Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético… e mais saudável. — O que manda? — Acho que preciso conversar. Estou só… e os dedos já cansaram de tanto bater nas teclas. — Ainda bem que você ligou. Eu estava justamente pensando em escrever sobre a música do Cartola. E só quem viveu esses momentos pode d...

As badaladas da Ave Maria

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                  As Badaladas da Saudade Voltei com outras preciosidades escondidas. São lembranças que me fazem correr ao computador e escrever — antes que escapem do pensamento — sobre o cair da tarde… ou o cair da noite, como prefere a linguagem poética. Principalmente aquela eternizada por Augusto Calheiros em sua Ave Maria, que fez suspirar um punhado de senhorinhas sentadas à beira da calçada, sonhando com a passagem de um possível par romântico nos bailes da vida. Pode ser também a angústia que, às vezes, me visita nesses momentos. Lembro dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento: “Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a lua nasce cor de prata, eu relembro Miracema em serenata.” E há também a lembrança de minha mãe. Nesta segunda-feira, 29 de julho, ela completaria cem anos. Não será comemorado em vida — mas será lembrado....

Doces figuras da terrinha

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        Figuras Folclóricas                           da Cidade Erasmo Tostes conta muito bem desse assunto em seu livro, mas é preciso reviver também alguns nomes incríveis da cidade. Como o Adão, o Paraoquena. Um negro valente e trabalhador que, quando passava da conta — misturando a bebida aos remédios controlados que tomava — saía pelas ruas correndo, brigando com quem julgasse tê-lo ofendido. E a tal “ofensa”, às vezes, era apenas uma provocação de moleque: “Paraoquena pé de pato, comedor de carrapato”. Outro tipo simples era o Raul. Dono de uma voz bonita e de uma cabeleira grisalha sempre bem alinhada. Raul, também conhecido como Juquitinha, se irritava com os gritos da garotada, é verdade… mas nunca correu atrás de ninguém, nem tentou agredir quem quer que fosse. Limitava-se a se aborrecer e a virar as costas para quem não quisesse ouvir seu cantar. Foram tantos personagens que marcaram nos...

E na varanda... uma Sonata

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                       Os Bailes de Varanda Sei lá… acho que já se vão cinquenta anos — ou mais — daqueles bailes nas varandas das nossas casas, lá na Terrinha. Os garotos de ontem já são avôs, com netos quase na idade que tínhamos naquela época. E o som que ouvíamos… hoje já não cai tão bem no gosto da moçada moderna. Uma sonata — que ainda deve existir por aí, guardada em alguma memória — resolvia a noite. E os compactos, simples ou duplos, ou os LPs garantiam duas ou três horas de dança… sem maldade, sem culpa. Às vezes, rolava um rostinho colado. E só. Tempo de felicidade pura. De simplicidade. De música boa embalando nossas reuniões. A nossa varanda, na casa em frente à Prefeitura, era uma das preferidas da turma. Ali perto, na casa do Seu Neném Braga, era outro ponto certo. Mais abaixo, o Seu Noqueta também abria espaço para os bailinhos, que viraram febre na cidade. Em todos os bairros, era comum receber um convite: “Vam...

O Seresteiro no bar do Amado

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                         Amado e o Seresteiro Amado era um sujeito simpático. Amigo de longa data do meu pai e, como ele, dono de bar — daqueles com freguesia variada e conversa fácil. Mas havia uma diferença. Meu avô e meu pai fechavam cedo o nosso estabelecimento, ali em frente à Prefeitura de Miracema. Depois do anoitecer, só em dias de festa — da igreja ou da cidade — é que a porta ficava aberta até mais tarde. Fernando Nascimento  Já o velho Amado… era o contrário. Seu bar começava a ganhar vida justamente no fim da tarde, no cair da noite, quando a cidade ia ficando mais mansa e mais boêmia. Lembro que ele rodou por três ou quatro bairros. Conheci o primeiro, na Rua da Capivara. O segundo já me encontrou quase adulto, tocando e cantando no conjunto do Zé Viana, lá na Sociedade Operária. No andar de cima, o salão fervia com rapazes e moças dançando. Embaixo, o Bar do Amado segurava a base: petiscos, bebidas quent...

Reflexões da pandemia

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             Minha Gente... Tem certos dias em que penso na minha gente. Agora então, penso demais. E sinto assim… todo o meu peito se apertar. A saudade dos filhos, dos netos, das manas, dos sobrinhos… bate cada dia mais forte. Porque parece que acontece de repente — e foi mesmo. Veio um tal vírus, chegou sem pedir licença, se instalou, e trouxe com ele esse jeito estranho de a gente viver… sem se notar. Não dá nem pra dizer como naquela canção, quando eu passo no subúrbio. Faz tempo que não ando por um lugar distante, nem por um subúrbio legal — nem daqui onde moro, nem das grandes cidades. E também não dá pra dizer: “eu, muito bem, vindo de trem de algum lugar…” Mas dá, sim, uma certa inveja dessa gente que segue em frente sem nem ter com quem contar. E isso é duro. Muito duro. Eu, mesmo em quarentena, reconheço: tenho com quem contar. Tenho com quem conversar, tenho quem me ajude nos afazeres, tenho amigos que me consolam quando a tristeza chega e ...

Segredos de quintal

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                                O Quintal da Casa 174 Nasci na casa número 174 da Praça Ary Parreiras, em Miracema, bem no centro da cidade — em frente à Prefeitura, ao lado do TG 217 e quase de frente para a nossa Igreja Matriz. Tive uma infância feliz e uma juventude privilegiada. Afinal, sou dos anos 50 e vivi intensamente os anos 60 e 70, chamados de anos dourados pelos poetas brasileiros. Mas não vim aqui contar minha vida na Praça Ary Parreiras, nem falar da cidade ou da Praça Dona Ermelinda, do Rink — meus points de criança e juventude — onde aprendi a soltar pipa, jogar bola de gude, rodar pião e, principalmente, jogar futebol na quadra mais famosa da cidade. Hoje resolvi contar histórias de um lugar sagrado. O meu quintal. Ali passei os melhores momentos da infância e um pouco da juventude. Um quintal que era horta, bem cuidada por minha mãe; tinha também a ceva, lavada e tratada pela minha avó. Não...

De volta ao passado

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                                 De volta ao passado Há dois anos, em Vila da Serra, Minas Gerais, fui convidado para um bailinho de carnaval. Claro que aceitei — minhas netas pediram, e pedido de neta não se recusa. Fomos nós: eu, Marina e, até certo ponto, a Gisele, que também viveu bons carnavais lá na minha Miracema. A promessa era tentadora: um autêntico carnaval de rua, com bloquinhos desfilando por uma avenida enfeitada de confetes e serpentinas. Coisa de fazer o coração bater no compasso da marchinha. Veio então a dúvida inevitável: que fantasia vestir? Depois de muito pensar, resolvi simplificar. Escolhi uma camiseta verde com uma frase que carrega um mundo inteiro pra mim: “Ferradurão / Campo do América / Municipal & Carrapichão”. Pronto. Era o suficiente. Mais do que fantasia, era memória vestida no peito. Assim saí para curtir o sábado de carnaval em Belo Horizonte — cidade que ainda man...

Aquele Triângulo das Bermudas

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 Quarta-feira, véspera de Natal. Me vejo sentado à beira da calçada, em frente à Prefeitura de Miracema, com um ar de quem carrega um certo amargor — perdido em pensamentos de um passado já distante. Ao me ver ali, naquele estado meio abatido, um velho amigo — desses que conhecem cada palmo daquele pedaço da cidade — parou, me olhou… e desabou em choro. Com a voz embargada, soluçando sem conseguir se conter, começou a despejar o que lhe apertava o peito: — Penacho… cadê o Bar do Vicente? Cadê a Padaria do Garibaldi? A Farmácia do Seu Scilio? Onde estão os herdeiros do Tetinho, do Neném Braga, do João Ramos, do Amaro Leitão, do José Barros, dos Coimbra? E o salão da Darquinha? Da Dona Cecília? E a turma do Manoel Reinaldo… onde foi parar? Fiquei surpreso com a reação do velho companheiro. Tentei costurar uma resposta, quem sabe aliviar um pouco aquela dor, explicando que já não há mais ninguém daqueles nomes no nosso velho reduto — aquele pedaço que eu costumo chamar de Triângulo da...

Quitutes da terrinha

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 Ouvindo um comentário de que teremos um festival de quitutes aqui na cidade, meu pensamento voa direto para os anos 1960, na minha Miracema, e pousa nas vitrines de doces e salgados, nas cozinhas dos bares — hoje guardadas apenas na memória de quem viveu aqueles anos dourados na Princesinha do Norte. Era uma abundância em todos os sentidos. Bares com estilo, cozinhas de alto nível e até os mais simples botequins serviam quitutes e tira-gostos de qualidade comprovada. E é por essas lembranças que caminho agora, trazendo à mesa alguns daqueles sabores que fizeram fama entre glutões, boêmios e apaixonados pela boa mesa. Tintão com Disco Voador — e o que seria isso? Qualquer atirador do TG 217, lá dos anos 60, responde sem pestanejar: chocolate com broa de amendoim do Bar do Seu Vicente, ali ao lado do Tiro de Guerra. O tal “disco voador”? Nada mais que a broa de amendoim. Saída do forno — muitas vezes da Padaria Primor, do Garibaldi Parreira — era dura como pedra. Mas bastava um dia…...