Aquele Triângulo das Bermudas
Quarta-feira, véspera de Natal. Me vejo sentado à beira da calçada, em frente à Prefeitura de Miracema, com um ar de quem carrega um certo amargor — perdido em pensamentos de um passado já distante.
Ao me ver ali, naquele estado meio abatido, um velho amigo — desses que conhecem cada palmo daquele pedaço da cidade — parou, me olhou… e desabou em choro.
Com a voz embargada, soluçando sem conseguir se conter, começou a despejar o que lhe apertava o peito:
— Penacho… cadê o Bar do Vicente? Cadê a Padaria do Garibaldi? A Farmácia do Seu Scilio? Onde estão os herdeiros do Tetinho, do Neném Braga, do João Ramos, do Amaro Leitão, do José Barros, dos Coimbra? E o salão da Darquinha? Da Dona Cecília? E a turma do Manoel Reinaldo… onde foi parar?
Fiquei surpreso com a reação do velho companheiro. Tentei costurar uma resposta, quem sabe aliviar um pouco aquela dor, explicando que já não há mais ninguém daqueles nomes no nosso velho reduto — aquele pedaço que eu costumo chamar de Triângulo das Bermudas.
Mas foi em vão. A lamentação continuava.
— Ainda bem que os herdeiros da Magali saíram da esquina, mas ficaram por ali mesmo… já soube que os filhos continuam no ponto, na nova morada da amiga, que também já subiu ao Oriente Eterno…
E a loja do Dover? Ainda existe… não é a mesma coisa, mas está lá, firme… só que não tem mais o meu barbeiro Oziel…
Pelo menos vi, no antigo Armazém do Jorge, o Monteirinho e o irmão dele, o Roque… ufa… alguém conhecido, meu caro amigo…
E assim ele seguia, entre lembranças e suspiros, tentando juntar pedaços de um mundo que já não se encaixa mais.
Quando soube que nem a Prefeitura estava no mesmo lugar, foi como se algo dentro dele cedesse de vez. Parou, respirou fundo, se irritou… e desabou em mais um choro, agora mais manso, porém mais fundo.
— Estou indo embora… vou lá pra Rua do Café. Lá, pelo menos, ainda vejo os netos dos meus amigos… no mesmo lugar. Chega… desisto de tentar resgatar meu passado miracemense… de morador das cercanias da Praça Ary Parreiras…
Virou as costas e saiu… sem sequer combinar onde seria a ceia de Natal.
Fiquei ali, ainda sentado à beira da calçada, vendo o amigo desaparecer devagar pela rua — como quem vai embora não só do lugar, mas de um tempo que já não volta mais.
A cidade seguia seu ritmo. Carros passando, gente apressada, luzes de Natal piscando como se tudo estivesse exatamente onde sempre esteve.
Mas não estava.
Olhei em volta e, pela primeira vez, senti que Miracema continuava ali… só que sem parte de mim — ou talvez eu é que já não estivesse inteiro nela.
Levantei devagar, ajeitei a camisa, respirei fundo… e segui também.
Sem pressa.
Sem destino certo.
Apenas com a certeza de que, naquela noite de Natal, alguns de nós já estavam comemorando apenas dentro da lembrança.

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