Miracema em nós
Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves dentro do coração — assim dizia a canção. E foi exatamente o que fiz: guardei minhas amizades, tranquei o peito por longos anos e, como quem joga a chave fora, deixei o tempo passar.
Mas a vida, às vezes, resolve abrir esse cofre.
E foi assim, como num filme daqueles bem sentimentais — à moda de Marcello Mastroianni ou Claudia Cardinale — que me vi revivendo rostos, vozes e histórias arquivadas no chip da memória e guardadas no coração.
O reencontro já estava na quinta edição. E eu, sempre sem tempo, ainda não tinha ido a nenhum. Ficava só nas fotos, nos comentários, acompanhando de longe — e sentindo o peito apertar um pouco mais a cada postagem.
“Quem cantava chorou ao ver o amigo partir…”
Voltei à Canção da América para resumir, numa pincelada só, tudo aquilo que eu sentia: saudade dos que estavam ali dentro de mim… e dos que já partiram.
Então me perguntei: por que adiar mais?
Mesmo quando a distância insiste em dizer não, é preciso ouvir a voz do coração. E ela vinha com nome e sobrenome: Marista Felix Linhares… e, do outro lado, Hércules Salles Padilha, reforçando o convite:
— No quinto encontro você não pode faltar.
E lá fui eu, para o Restaurante A Mineira, em São Francisco, Niterói.
Cena 1
Logo na chegada, uma recepção antológica.
Júnior Abdala, Cida e João Oliveira Alves me esperavam na porta. Abraços, lágrimas, beijos — e uma frase que vale mais que qualquer coisa:
— Estamos aqui há meia hora. Com todos os problemas, largamos tudo pra te abraçar.
Tem preço?
Cena 2
Entro no salão quase em câmera lenta.
Coração descompassado, batendo como tambor de escola de samba. Os pés, indecisos, pareciam ensaiar uma valsa.
E quem se levanta para o primeiro abraço?
Maurício Siqueira — velho parceiro, amigo da minha irmã Eliane, e nos tempos de juventude, um verdadeiro “pé de valsa”.
Cena 3
— Quem é você? — perguntou uma moça à frente do Maurício.
Expliquei. Fui reconhecido.
— E você?
— Sou Dilermária…
Nem precisava completar. Colega de sala, amiga de infância.
Abraço apertado. Olhos marejados. Garganta travada.
Já acomodado, fui reencontrando os que ainda vejo com mais frequência: Armando Resende, Cacá do Suíço, Josemar Poly e Regina… entre outros que a vida não deixou afastar tanto.
Mas, de repente, um grito corta o salão.
Cena 4
— Meu querido! Você prometeu e cumpriu! Seja bem-vindo!
Era Marista, braços abertos no corredor.
Abraço daqueles que dizem tudo.
Pausa estratégica para um chope — porque emoção também cansa.
Júnior vai de uísque. Marina, sempre sensata, decreta:
— Você começou com cerveja. Não muda.
E não se mexe em time que está ganhando.
Quando a caneca chegou, o primeiro nome que veio à mente foi o do Chopinho Amim.
E lá vieram mais lágrimas.
Cena 5
Começa a caça aos rostos que o tempo quase apagou.
— Cadê o Walzenir Bruno?
— Está por aqui… procura.
Apelo ao passado:
— Ererê… Ererê!
E a resposta vem de perto:
— Quem está lembrando do meu apelido?
Era ele.
Abraço. Risada. O inevitável:
— Fala, Penacho!
(Confessou depois que só me reconheceu porque avisaram: “é o Adilson, filho do Zebinho”. Justo.)
Encontrar minha prima, Cláudia Dutra — filha do querido Sebastião Dutra — foi mais um presente inesperado da noite.
Cena 6
O filme segue intenso.
Abraços, fotos, lembranças.
Avisto Júlio César Barros — reconhecimento imediato.
Falamos de tudo: peladas do Rink, ginásio, bailes…
Pergunto pelo Ubaldinho.
Nem dá tempo de resposta.
Ele entra.
Mesmo sorriso. Mesmo jeito.
Ubaldo Moll Júnior.
E, pra minha felicidade, me reconhece.
Mais um abraço que não cabe em palavras.
A conversa seguia solta — com Júnior, Cida, todos.
Rimos, choramos, lembramos dos que se foram e celebramos os que ficaram.
— Quem mais está por aqui? — perguntei.
— Acho que você já viu todo mundo…
Mas não.
Sempre tem mais.
Gilson Moll, Sebastiana Moreira, Cremilda Tostes… abraços, fotos, histórias cruzadas.
Cena 7
Quando parecia completo…
Ela entra.
Jane Neiva — uma das musas da nossa época, elegante como sempre.
Pronto.
Agora sim, elenco completo.
Cena final
Como todo bom filme, termina com sorrisos.
Fotos coletivas. Promessas de reencontro. E, lá pelas duas da manhã, cada um segue seu caminho.
Mas com uma certeza:
Algumas amizades não envelhecem.
Apenas esperam o momento certo de voltar a viver.
Comentários
Postar um comentário