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Mostrando postagens de maio, 2026

Falando de Miracema

  As vezes, no Armazém onde tomo minhas cervejas, às sextas-feiras, me pego falando de Miracema, a minha terra natal, e, de vez em quando, encontro um que passou por lá, trabalhando ou visitando amigos ou familiares, e a prosa fica melhor ainda, e, nesta última semana, um parceiro,  que eu acreditava ser um  desconhecido por mim mas amigo do Lenílson, me ouviu falar da "terrinha" e sentou à mesa para prosear comigo.  Foi um grande prazer, mas confesso que foi frustrante ter que concordar com o moço das vendas e que passava por lá de quinze em quinze dias e tinha uma clientela forte e certa. - Se naquele tempo tivesse a tal de Internet eu não ficaria feliz, meus amigos, hoje, tiram pedidos pelo celular ou por e-mail, eu viajava feliz por ter que ir a Miracema e ver as meninas bonitas da cidade que saiam do colégio transformando aquela que vocês chamam de Rua Direita, em um palco de desfile de misses.  Realmente, o moço tem razão, era mesmo um espetáculo, pena que...

A playlist do Armazém

  A  E o que toca por aqui? Tem “Qui Nem Jiló”, em nova roupagem com Gilberto Gil. Tem “Conversa de Botequim”, do genial Noel Rosa, na voz de Teresa Cristina, acompanhada de um violão que fala por si só. Só voz e cordas... e mais nada. Uma viagem no tempo. Como disse meu amigo Augusto Cardoso, médico com alma de violonista: "Esse violão me fez lembrar do Farofinha." E quem conheceu Farofinha sabe exatamente do que ele falava. Foi o acompanhante maior dos seresteiros de Miracema. Seu violão não apenas tocava — conversava, sorria, emocionava. Depois vem Claudette Soares, brilhante em “O Cravo Brigou com a Rosa”. Elis Regina aparece com “Andança”. Djavan retorna em “Sina”, ao lado de Caetano Veloso. Seu Jorge dá nova vida a “Canto de Ossanha”. E até Mart’nália — que confesso demorei a entender, mas hoje admiro profundamente — surge com sua deliciosa versão de “Menino do Rio”. E, para fechar, nada menos que “Sonho Meu”, na voz doce e eterna de Dona Ivone Lara. As próximas playlis...

Mesa de bar

  Ontem comentei aqui sobre um verdadeiro papo de botequim, analisando a letra de “Preciso Ir” , do grande Candeia. Logo depois, recebi do amigo José Luiz da Silva, nosso eterno Categoria, uma sugestão daquelas que merecem atenção: ouvir “Mesa de Bar” , do inesquecível Gonzaguinha. Confesso que não conhecia nem a música nem a letra. Mas bastou ouvi-la pela primeira vez, ali mesmo, naquele instante, para ficar impressionado. Afinal, estamos falando de Gonzaguinha, um compositor romântico, cronista da vida e contador de histórias que transformou sentimentos em canções que marcaram época. E impressiona pensar que, mesmo passados 36 anos de sua partida, suas músicas continuam vivas, presentes nas playlists de fãs espalhados por este Brasil afora. A letra de “Mesa de Bar” narra, com perfeição, um legítimo papo de botequim — daqueles que vivemos nas sextas-feiras no Armazém, ou nas famosas segundas sem lei do Para Raio’s Bar, ali debaixo das arquibancadas do Arizão, aqui em Campos dos G...

Deixe-me ir... preciso andar

  Naquelas noites de sexta-feira, no Armazém, quando uma simples caixinha de som faz toda a diferença e ajuda a espalhar a alegria entre os amigos, surgiu na playlist uma das músicas preferidas deste escriba. No meu entendimento, talvez a letra mais bonita de todos os tempos. Era Deixa-me Ir, do grande Candeia, eternizada na voz de Cartola e, mais tarde, revisitada por outros craques, como Zeca Pagodinho e Marisa Monte, ajudando a torná-la ainda mais popular. No papo descontraído de sempre, Marco me perguntou o que me levava a considerar Deixa-me Ir a letra que mais me emociona e me toca. Entendam como quiserem, mas logo de cara me enxerguei naqueles versos: "Preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar..." E quem passou pelo que passei — uma cirurgia no coração, um câncer, um aneurisma — dificilmente não entende o peso dessas palavras. Porque, no fundo, nada disso vai me convencer do contrário: eu quero assistir ao sol nascer, ver as águas do rio correr, ouvir os...

Um almoço com Jair Rodrigues

  O Cachorrão e uma história para contar Ouvi desde pequeno, em Miracema, principalmente nas gravações de Dois na Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues, discos que despertaram em mim o prazer de ouvir a boa música brasileira. E, por isso, faço aqui um agradecimento especial à mana Eliane, pelo bom gosto e pela insistência em me apresentar esse monstro da MPB. Prometi ao Sefinho que contaria a única passagem que vivi com Jair Rodrigues em uma de suas visitas a Campos. E promessa feita a amigo é dívida que se paga. Então, lá vai. O cenário era o Jardim São Benedito, palco de grandes shows durante o governo Arnaldo Vianna. Aos domingos pela manhã, era ponto obrigatório de encontro entre amigos e amantes da boa música. Por ali passaram alguns dos maiores nomes da MPB, mas a história que guardo com carinho aconteceu justamente na visita de Jair, o inesquecível Cachorrão. Uma jornalista, amiga de meu filho Leandro, me encontrou por lá e fez um pedido: — O senhor pode ir comigo ao camar...

Declamando Fernando no Rio Sena

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  Navegando ao entardecer pelo Rio Sena, no tradicional  Bateaux Mouches , fui presenteado por uma cena que parecia saída de um filme: o surgir de uma lua cheia iluminando as águas de  Rio Sena . Naquele instante, minha memória tratou de viajar ainda mais longe. Vieram à mente versos do poeta  Fernando Nascimento , as páginas dos antigos livros de geografia e, principalmente, minha grande mesa de inspiração: minha mãe, Lili, apaixonada pelo Sena e pela  Torre Eiffel , embora os tivesse conhecido apenas pelos livros e pelos filmes. Sem pensar duas vezes, declamei em voz alta, com a emoção de quem fala para si e para o mundo: "Quando a lua desce aqui no rio, sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a lua nasce em cor de prata, eu relembro  Miracema  em serenata." Turistas de várias nacionalidades voltaram seus olhares para mim. Alguns riram, talvez sem entender uma única palavra. Outros aplaudiram espontaneamente. Houve ainda aqueles que falavam p...

O Bar do Vovô

  O Bar da Praça E, como hoje é dia de bar, de drinks, cervejas e petiscos, minha memória me leva direto aos finais de semana naquele famoso bar da Praça Ary Parreiras. A localização era privilegiada. Bem em frente ficava o prédio da Prefeitura, que também abrigava o Fórum e a Câmara de Vereadores. Ao lado, a sede do Tiro de Guerra 217. Um pouco acima, a Igreja Matriz de Santo Antônio, guardando a praça como quem observa tudo em silêncio. Convenhamos: era um endereço de respeito. Talvez por isso mesmo este amigo de vocês pouco tenha aproveitado as famosas festas de Santo Antônio. Eram dias de praça cheia, música, encontros e alegria, mas também os dias em que o bar mais faturava. E, numa família que trabalhava unida, cada braço fazia diferença. Enquanto muitos festejavam, nós trabalhávamos — e, curiosamente, também éramos felizes assim. Naquele tempo ainda não existia essa moda de espalhar mesas e cadeiras pelas calçadas. Nosso salão dava conta do recado. Era amplo, acolhedor,...

Onde canta o sabiá?

  Ouvindo alguns sucessos da minha infância e juventude — a bossa nova sempre esteve entre minhas paixões — de repente me vi outra vez de calça curta, sentado na calçada da Prefeitura, com um talo de mamão, uma caneca de alumínio com água e muito sabão, soprando pelo canudo improvisado e soltando bolas, bolinhas e bolões... exatamente como hoje as crianças, da geração de Luna e Felipe, meus netos, fazem com brinquedos comprados em lojas especializadas. E por que me lembrei dessa peraltice ouvindo música? Fácil explicar. Na canção interpretada por Dóris Monteiro, um verso diz: “Sentado na calçada com canudo e canequinha...” Bastou ouvir isso para viajar, como tanto gosto, de volta ao meu passado na minha querida Miracema. Certo dia, postando meus contos e crônicas no Facebook⁠�, alguém contestou um texto em que eu parodiava Gonçalves Dias: "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá..." O amigo, cheio de convicção, disparou: “Sabiá não canta em palmeiras.” Tudo bem. Mas afi...

O banco, a Praça e a Matriz

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Pedi um desenho da praça para a Meta, aplicativo de fotos e inteligencia artificial, e ganho esta que está ilustrando o texto.  O banco, a árvore frondosa, a Matriz de Santo Antônio ao fundo o Jardim de Miracema. Haja coração! Dá pra sentir o peso bom da saudade da Terrinha. *Praça das Mães + Jardim de Miracema + Matriz de Santo Antônio no alto*... é um quadro completo. Consigo ver: as palmeiras do Jardim balançando, o som dos sinos da Matriz descendo a ladeira, e aquela paz de cidade pequena que só quem é de lá entende. Santo Antônio olhando por todo mundo lá de cima. Estar longe com o pensamento e o coração aí é uma forma de estar presente também. A memória guarda o cheiro da praça, o banco preferido, a luz do fim de tarde batendo na igreja. Isso ninguém tira. Quando bate essa saudade, eu costumo fechar os olhos e voltar pra algum cantinho específico da praça. Mas qual seria este cantinho? Um  banco debaixo de uma árvore frondosa guarda mais que uma  sombra. Guarda a o...