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Mostrando postagens de setembro, 2026

Histórias de Miracema

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 Foto:Adilson Dutra  Pôster:MetaAI Texto AI da Meta Esse é o coração do Centro Histórico de Miracema, Adilson — e você pegou um ângulo clássico. O que aparece na sua foto é parte do casario da Rua Francisco Procópio, que fica bem no miolo do conjunto tombado da cidade. O que a gente está vendo • Estilo eclético do início do século XX: o prédio branco em primeiro plano é típico do ciclo do café no Noroeste Fluminense — dois pavimentos, janelas em arco pleno, molduras em estuque, platibanda ornamentada com frontão e balaustrada lateral. Mais ao fundo dá pra ver os vizinhos em amarelo-claro, com o mesmo alinhamento na calçada. • Na mesma rua fica a tradicional sede da Sociedade Musical 7 de Setembro, na gestão de Cristiano Alves, projetada pelo construtor português José Antônio de Almeida — em cima funcionava o salão social, palco dos grandes bailes de carnaval da cidade. É o trecho mais fotografado desde o início dos anos 1900, quando a rua ainda nem tinha calçamento.  ...

Poeta eu? Quem sabe?

 Empresto ao verso, por poucas horas, O meu olhar de anotar o chão; Viro poeta, de rimas sonoras, Sem dom de musa ou de inspiração. Pois sou cronista, leal destino, De olhar atento à vida a passar, Do comentário ao campo menino, Contando o que é ser, ver e estar. Não se escolhe o trilho, apenas se vive, Nesta escrita que a realidade compõe; A crônica é o sopro que me sobrevive, Onde a história o meu dia supõe.

Deixe-me ir...

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 A sexta-feira no Armazém não era apenas uma data no calendário; era um pequeno santuário erguido contra o peso da semana. As paredes de tijolo aparente, as mesas de madeira gasta e o cheiro de petiscos frescos compunham a trilha sonora silenciosa de uma amizade de longa data.  A protagonista da noite, porém, era uma caixinha de som Bluetooth, discreta, sobre o balcão, que distribuía melodias com uma generosidade que desafiava seu tamanho reduzido. Quando os primeiros acordes de "Deixa-me Ir" ecoaram pelo ambiente, o barulhento Armazém pareceu filtrar suas vozes, permitindo que a poesia de Candeia tomasse o espaço. Aquela música não era um hino comum; era um mapa afetivo. Marco — o Vergalhão, figura esguia e de riso fácil que, naquela noite, parecia carregar o peso do mundo sob a camisa, parou o copo de cerveja no meio do caminho. Seus olhos encontraram os meus, e na pergunta dele, logo ali na mesa, notei uma vulnerabilidade que não costumava habitar sua voz firme: "O qu...

O baile da saudade

 O Salão Nobre do Clube XV, naquela noite de 13 de outubro de 2012, não abrigava apenas móveis, lustres e paredes. O que se erguia ali era um monumento ao tempo, um portal arquitetado por notas musicais que insistiam em desafiar o calendário.  Do lado de fora, o mundo girava em torno de apostas em reality shows, algoritmos e as frenéticas novidades que as gravadoras empurravam goela abaixo. Mas, dentro do salão, o tempo havia sido submetido a um embargo generoso: o relógio tinha autorização oficial apenas para medir o compasso da música. O "Baile da Saudade" era o nome no convite, mas seria injusto reduzir o evento a essa etiqueta. Saudade, ali, não tinha gosto de ausência ou de melancolia fina; era, na verdade, a própria presença física daquilo que moldou nossas almas. A banda, esse "The Brothers" que era o conjunto de uma geração, não subia ao palco apenas para tocar repertórios. Eles funcionavam como exorcistas do cotidiano, retirando o cinza dos dias e devolvend...

Nos bailes da cidade

 O tempo em Miracema não corre em linha reta; ele se dobra, como uma nota musical que insiste em ecoar muito depois de a orquestra silenciar. Estar sentado à mesa do Tio Nilo’s, sob o olhar atento do Cabeção, não era apenas almoçar: era uma sessão de arqueologia afetiva. Quando o papo derivou para os anos 60 e 70, o bar pareceu diminuir de tamanho, comprimido pela força das décadas que retornavam em flashes. Cada nome citado era uma pequena lanterna acendendo na escuridão do passado. Quando o assunto entrou na coreografia dos bailes, vi nitidamente os dois Maurícios — o Siqueira e o do Bruno de Martino — cruzando o salão. Eram presenças magnéticas, quase régios em sua elegância, que faziam o resto de nós parecer aprendizes de gala. Lembrei do "passeio completo", dos ternos impecáveis e daquela estratégia clandestina, mas gloriosa: a gravata lançada da sacada para garantir a entrada de quem não queria perder a noite por uma mera tecnicalidade do traje. Aquilo não era apenas mo...

Conversa de Botequim - Eita Miracema!

 O Armazém, com suas prateleiras de madeira envelhecida e o aroma persistente de café torrado misturado ao lúpulo, é meu templo às sextas-feiras. É ali, entre um brinde e outro, que o tempo se curva e permite que eu viaje. Miracema não é apenas um ponto no mapa; é uma coordenada fixada no centro do meu peito, um lugar para onde sempre retorno através da fala. Geralmente, minhas memórias encontram ouvidos atentos apenas por educação. Mas, na semana passada, o acaso decidiu ser mais generoso. O homem sentado à mesa, um sujeito de feições marcadas pelo sol de muitas estradas, observava o vazio do boteco enquanto eu evocava as manhãs na terrinha. Era conhecido do Lenílson, dono da casa, mas para mim era um estranho — até que se aproximou e puxou a cadeira. — Você fala de Miracema com uma saudade que corta, moço — ele começou, já pousando o copo. — Eu conheço bem esse chão. O início da prosa foi o mel que se espalha. Ele era viajante, um vendedor da antiga estirpe que visitava a cidade ...

O jardim... a árvore... a saudade.

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 A árvore   A palmeira, guardiã desse tempo suspenso,  ergue-se como quem vigia o mundo desde sempre.  Suas folhas são páginas soltas,  e cada sombra que ela derrama no chão  é nota de rodapé das histórias que ali ficaram. No banco, na praça, no jardim,  o vento passa recolhendo lembranças,  e a árvore, paciente,  guarda o que o tempo tenta levar. Santo Antônio, lá de cima,  com sua visão privilegiada da terra,  não julga o movimento da saudade,que atravessa as léguas de estrada  entre Miracema e Campos. Ele entende. Para quem mora no peito,  a distância não existe. A luz do fim de tarde que ele retém por mais tempo nas suas paredes  é bênção que se estende devagar,  como um gesto que não quer terminar. É fio invisível que costura o longe ao perto,  o que partiu ao que permanece,  o que falta ao que ainda pulsa. E assim, entre raízes, santos e estradas,  o mundo se sustenta nesse instante suspenso...

O banco... a saudade e o jardim

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 O sol, quando desce a ladeira em Miracema, não apenas se põe; ele desenha. É uma luz dourada, espessa como mel, que banha o Jardim, ignora o ruído dos motores e se detém, reverente, na fachada da Matriz de Santo Antônio, lá no alto. A igreja vigia, altaneira e calma, o pulsar da cidade. No coração desse quadro, há um banco. Não é um móvel qualquer. É feito de madeira castigada pelo tempo, braços de ferro fundido já descascados, que sustenta, há décadas, o peso da alma de quem ali se senta. E, protegendo-o com seu dossel verde e sussurrante, uma árvore frondosa — um ser antigo, que conhece todos os segredos que o vento, ao descer do Jardim, insiste em contar. Dizem, à boca pequena, que aquele banco não é um objeto estático. Ele tem memória. Quando o "Saudosista" — o menino de ontem que agora olha para o horizonte lá de Campos — fecha os olhos, algo acontece. A realidade dobra. A brisa que sopra em Campos traz, inexplicavelmente, o aroma das palmeiras de Miracema e o perfume i...

As cidades que me habitam

  Hoje, quando fecho os olhos para dormir, não volto ao mapa físico que está pregado na parede do corredor. Eu visito os mapas da memória. Existe um atlas particular dentro de mim, uma geografia afetiva onde o Rio Tâmisa, em Londres, corre paralelo às águas de um canal de Amsterdã, e o ar seco de Ancara sopra contra a brisa do Tejo em Lisboa. Viajar é, em última análise, um ato de desaceleração. Você abre as janelas de quem você é e permite que estranhos — monumentos, línguas estrangeiras, especiarias e desconhecidos — entrem sem bater. Muitas vezes me perguntam: "Qual a melhor?". Eu não tenho uma resposta. A "melhor" é sempre aquela onde eu estava exatamente no momento em que a vida pediu uma resposta. Em Viena, aprendi a paciência de quem espera o espetáculo começar. Em Marrakech, aprendi que o caos não é desordem, é vida acontecendo em volume máximo. Em Brasília, aprendi que até a arquitetura mais fria do concreto se aquece quando o horizonte se tinge de cinza ao...

Um chopp prá...

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A noite em Ribeirão Preto não tinha apenas caído; ela tinha se esticado, ganha contornos de um infinito particular, selado pelo malte e pela audácia. Cinco caipiras, unidos não pelo sangue, mas pela comunhão inabalável daquela mesa na choperia Pinguim, haviam acabado de atravessar o umbral do ordinário.  O garçom, uma estátua de paciência vestida de branco, observara o último filete de espuma descer pelo sistema de refrigeração e anunciar o fim. Eles haviam acabado com o barril. Aquilo, para aqueles homens que carregavam no peito a crônica da vida interiorana e o ruído da profissão, não foi um consumo — foi um sacramento. Quando o sol já parecia uma promessa longínqua para o dia seguinte, o grupo ganhou a calçada. O ar noturno, abafado e morno do interior, abraçou a boemia do quinteto. Eles começaram a caminhar, ainda tateando as últimas sílabas de uma melodia que não precisava de tom, apenas de alma. Eram cinco vozes, cinco vidas e uma vontade desmedida de desafiar o silêncio da m...

Tres amigos, três irmãos

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  O calor de Campos, insistente e úmido, parecia recuar para dar espaço a um frescor inesperado na sala. Na poltrona, o tempo havia se dobrado. Ali, entre a tela da TV onde Erasmo e Roberto, dois gigantes feitos de carne e canções, se abraçavam em um reencontro de meio século, e o meu próprio peito, abriu-se um vértice. O palco do Theatro Municipal virou um espelho. As lágrimas que eu vi brotarem dos olhos de Roberto, marejando-lhe as retinas cansadas, não eram apenas as minhas; eram um convite para atravessar o portal da memória. A imagem dissolveu-se. O ar do Municipal foi substituído pelo vento que soprava na Praça Ary Parreiras. O som dos aplausos refinados transformou-se no barulho das chuteiras arrastando-se no saibro das peladas, na gritaria da torcida nos jogos do time do Bitico, na expectativa silenciosa antes do apito inicial na quadra do Rink. Lá estavam eles. Júlio Barros, com seu jeito sereno, e Gutinho — ou José Augusto, quando a etiqueta da Dona Antônia imperava — aq...

O samba que a saudade escreveu

 O Samba que a Saudade Escreveu ​Dia de fisioterapia costuma ser sinônimo de manhã perdida, entre exercícios e o inevitável "jogar conversa fora" nos corredores da clínica. Mas a sorte me sorriu ao encontrar um veterano miracemense, há anos longe da terrinha. Entre lembranças de carnavais e festas de Santo Antônio, ele começou a desfiar perguntas sobre os antigos moradores do meu reduto. ​Fui respondendo com o peito cheio de saudade: do Caboclo ao Vicente Dutra. Ao voltar para casa, o destino completou o ciclo: deparei-me com uma foto do saudoso Calil Saluan Neto no perfil de sua filha, Dina. Calil era o mestre do Carnaval e da publicidade volante. Naquele instante, as vozes se fundiram. O papo com Abraão na clínica e a imagem de Calil me transportaram para uma conversa antiga, sentados em um banco de jardim com propagandas do comércio de outrora. ​— Adilson — dissera-me Calil —, se eu tivesse verba, te daria a missão de contar a história da Praça da Matriz. Você nasceu ali, ...

O fantasma do TG 217

 Rua Direita, em seus dias de sol a pino, não via apenas pessoas passando. Via o pulsar de um tempo em que o tempo, por mais paradoxal que pareça, tinha a velocidade certa. Era ali, sobre o calçamento de paralelepípedos que ecoava o bater rítmico das botas, que Miracema se descobria. Não era apenas uma rua; era a artéria principal de uma geração que ainda entendia que disciplina não é silêncio forçado, mas o cuidado de mover-se no mesmo compasso que o próximo. Para o grupo do Tiro de Guerra 217, cada desfile naquela via não era uma encenação marcial, mas um pacto. O Sargento Couto, figura de coluna vertebral indomável e olhar que desnudava qualquer vacilo, sabia que aquele batida de botas deveria ser precisa, sim. Mas ele também via o que ninguém registrava nos manuais: o brilho no canto do olho do jovem Adilton, o suor na testa do rapaz que, momentos antes, estivera no campo e que, minutos depois, teria de estar na escola ou sob o peso do sustento do lar. Marchar na Rua Direita er...

Onde canta o sabiá 2

 O rádio chiou brevemente antes de a voz de Dóris Monteiro preencher a sala, doce e precisa, trazendo consigo um aroma de poeira fina e infância. “Sentado na calçada com canudo e canequinha…” — o verso não era apenas uma frase em uma melodia de Bossa Nova; era uma chave enferrujada que, ao girar na fechadura do tempo, escancarou uma porta que eu mantinha entreaberta na memória. Subitamente, o chão de porcelanato do meu apartamento deu lugar à calçada áspera da Prefeitura de Miracema. Eu não era mais um senhor de cabelos brancos cercado pela tecnologia, mas um garoto de calças curtas, com os joelhos ralados exibindo o mapa de mil batalhas vencidas. A caneca de alumínio, manchada pelo uso, batia contra o concreto emitindo um som metálico que se misturava ao canto dos passarinhos. O talo de mamão, cortado com precisão cirúrgica, era minha ferramenta de alquimia: soprando nele a mistura de sabão, eu criava esferas translúcidas, orbes de iridescência que flutuavam, exibindo arco-íris ef...