Onde canta o sabiá 2
O rádio chiou brevemente antes de a voz de Dóris Monteiro preencher a sala, doce e precisa, trazendo consigo um aroma de poeira fina e infância. “Sentado na calçada com canudo e canequinha…” — o verso não era apenas uma frase em uma melodia de Bossa Nova; era uma chave enferrujada que, ao girar na fechadura do tempo, escancarou uma porta que eu mantinha entreaberta na memória.
Subitamente, o chão de porcelanato do meu apartamento deu lugar à calçada áspera da Prefeitura de Miracema. Eu não era mais um senhor de cabelos brancos cercado pela tecnologia, mas um garoto de calças curtas, com os joelhos ralados exibindo o mapa de mil batalhas vencidas. A caneca de alumínio, manchada pelo uso, batia contra o concreto emitindo um som metálico que se misturava ao canto dos passarinhos. O talo de mamão, cortado com precisão cirúrgica, era minha ferramenta de alquimia: soprando nele a mistura de sabão, eu criava esferas translúcidas, orbes de iridescência que flutuavam, exibindo arco-íris efêmeros antes de estourarem, como o próprio tempo.
Sorri, olhando para os netos, Luna e Felipe. Eles estavam ali perto, absortos nas telas brilhantes de seus aparelhos modernos. Brincam, é verdade — e possuem o brilho da descoberta nos olhos —, mas suas ferramentas são frias, vendidas em lojas de vitrines impecáveis. Eles não sentiram a seiva do mamoeiro nem o frescor úmido de uma tarde de Miracema, onde o entretenimento não dependia de rede ou conexão, apenas do pulmão e da vontade de criar o invisível.
A lembrança trouxe também o episódio do Facebook. Aquela crítica pedante sobre o sabiá de Gonçalves Dias: “Sabiá não canta em palmeiras.” Dei uma risada baixa. Quanta falta de visão habita a alma dos técnicos da realidade! Se o sabiá escolheu, ou não, o topo de uma palmeira em Miracema, pouco importa para a arquitetura da minha memória. O pássaro ali era um símbolo, um guardião de nossas tardes descalças. Naquela época, o nosso mundo inteiro cabia dentro do alcance da voz da ave.
Ah, as nossas “lojas” de aventura! Quem hoje explicaria a euforia de descer o morro da Igreja Matriz montado em uma casca de palmeira? Era um skibunda artesanal, improvisado com o que a própria natureza fornecia, entregando ao gramado o peso do nosso corpo e a totalidade da nossa alegria. Terminávamos com a calça imunda de seiva, a pele marcada pela grama e o coração lavando-se em gargalhadas que faziam o eco saltar entre os muros da igreja. Luna e Felipe vivem a mesma adrenalina, talvez nas pranchas em Natal ou em parques tecnológicos, e, secretamente, agradeço: a alegria não mudou, apenas mudou o terreno onde ela floresce.
Eu me lembro da tentativa tola de prender o tempo dentro de uma gaiola, quando subíamos em direção ao morro onde hoje repousa o Calvário. Eu, sem talento algum para o cativeiro, felizmente falhava em cada captura. O sabiá escapava — e hoje vejo que era para o meu próprio bem. Eu não queria aprisioná-lo; eu só queria sua música, o selo sonoro daquele pedaço de paraíso.
Muitas vezes, a correnteza mansa do Ribeirão Santo Antônio serviu de guia. Nas câmaras de ar de pneu que encontrávamos pelo caminho, tornávamo-nos navegadores de um mundo que parecia eterno. Entre o balanço da Usina Santa Rosa e o passar pelo Pontilhão do Rosa, o tempo se diluía. Era ali, cercado pela vegetação que sussurrava histórias aos rios, que eu realmente entendi onde cantava o sabiá.
Ele nunca precisou das palmeiras do jardim.
O sabiá, na verdade, sempre foi um migrante da alma. Ele atravessou os anos, sobreviveu à invenção do televisor, à revolução digital e ao passar inexorável dos dias. Se hoje o mundo me pede explicações técnicas ou precisão zoológica, eu apenas aceno. O sabiá continua aqui, protegido dentro do meu peito, entoando a mesma melodia que um dia guiou minhas mãos de garoto enquanto eu, sentado na calçada, soprava bolhas de sabão, convencido de que elas, assim como a vida, seriam eternas enquanto durassem.
Comentários
Postar um comentário