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Mostrando postagens de agosto, 2026

Samba da saudade

 O silêncio que se seguiu à última frase de Calil na minha imaginação não foi um vácuo, mas uma nota musical sustentada, um acorde menor que parece ecoar nas ruas de Miracema até hoje. O vento da tarde soprou sobre o papel, e o "Triângulo das Bermudas" — essa geografia do afeto que traçamos — pareceu flutuar, etéreo, como um estandarte antigo que não chegou a cruzar a avenida. O Samba que a Saudade Escreveu não precisa de carros alegóricos feitos de isopor e purpurina, nem de subvenções das prefeituras ou do patrocínio dos grandes coronéis de outrora. O patrocínio, na verdade, sempre foi outro: o brilho nos olhos de cada morador ao citar um sobrenome que, por si só, já era um samba-enredo inteiro. A cada passo meu na calçada após a clínica, Miracema não se apresentava como a cidade de tijolo e poeira, mas como um cenário vivo de um filme rodado em câmera lenta. Ali, na esquina, o Seu Manoel ainda servia um café que tinha gosto de acolhimento; um pouco adiante, a voz de Dona D...

Conto da gíria

 Hoje recebi um daqueles vídeos que vivem rodando no TikTok e no Instagram. Estou rindo até agora — da minha própria reação e da cara de interrogação da Marina, que, coitada, parecia que estava assistindo a uma palestra em latim. O vídeo era um clássico de nostalgia barata, daqueles que te fazem sentir com 150 anos. A gente começou a brincar, inventar diálogos como se estivéssemos naquele tempo antigo, de banco de jardim, de caminhada sem pressa pela Rua Direita, sem nem saber o que significava "boleto" ou "ansiedade". Era um papo reto, sem complicação, só na base da resenha, aquela conversa que vai desenrolando como um carretel sem linha travada. Aí me deu uma vontade danada de tentar resgatar as gírias do meu tempo. Confesso: não é tão fácil quanto parece. A gente acha que tem o vernáculo na ponta da língua, mas a memória resolveu tirar férias coletivas. Por isso, já vou pedindo ajuda aos universitários pra reconstruir esse nosso vocabulário que, aparentemente, ca...

Menino Passariinho

  Hoje me veio à cabeça meu velho e saudoso amigo Luiz Alberto da Motta Alvim. Para nós, lá da terrinha, simplesmente Bebeto do Juscelino. Aqui, em Campos dos Goytacazes, ficou conhecido como Passarinho, apelido que ganhou por estas bandas e que acabou se agregando ao seu nome. Virou Bebeto Passarinho, uma doce figura, querida por todos os amigos e companheiros do Banco do Brasil. Eu e Bebeto fomos criados naquele espaço de Miracema que costumo chamar de "Triângulo das Bermudas". Não me perguntem o porquê. Foi por ali que dividimos os mesmos sonhos, entre eles o de criar um conjunto musical que reunisse os amigos músicos, amadores, da nossa terra. Bebeto bancou os custos iniciais e o conjunto — hoje chamado de banda — nasceu no Aero Clube de Miracema, que naquela época estava abandonado e precisando de reformas. Foi ali que ensaiamos e realizamos nossos primeiros bailes. Nem me perguntem se era tudo muito legalizado ou não. O importante é que a turma era boa e fazia um som be...

Eu, Julio e,Gutinho 2

  O calor de Campos parecia não querer dar trégua. Na sala, o ar pesado de uma tarde de verão insistia em envolver a casa, mas, dentro de mim, a atmosfera era outra. Eu estava ali, aninhado na minha poltrona de sempre, com os olhos fixos na televisão. No palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Erasmo Carlos celebrava seus cinquenta anos de estrada, um monumento de nossa música popular. Mas o ponto de ruptura da minha tranquilidade foi quando as cortinas do cenário da vida pareciam se abrir para mais alguém. O piano, as cordas, a expectativa — e então, o espetacular Roberto Carlos entrou em cena. Não foi apenas o encontro de dois ícones da Jovem Guarda. Foi o abraço de duas almas que atravessaram décadas de luzes, sombras e trilhas sonoras. Ao ver o Rei, aquele que cantou todas as nossas desilusões e euforias, deixar que as lágrimas corressem livremente diante do seu amigo de uma vida, meu coração, já vivido e calejado por "tantas emoções", simplesmente capitulou. As lág...

Poeta ou cronista?

  Pousa a pena o cronista, esse fiel escudeiro do tempo, e, por um instante, desabotoa o paletó dos fatos para vestir o linho branco da poesia. Não há melancolia neste intervalo, apenas o doce exercício de ser, por um momento, aquilo que os mestres plantaram em sua alma. Hoje, a arquibancada silencia. O apito do juiz é substituído pelo sussurro do vento nas copas das árvores que Olavo descreveu tão bem. Não há cronômetro, não há prazo, nem a pressa da primeira página. O papel aceita a calma, a palavra cede à emoção e, enfim, a rima se deixa conduzir, mansa, como o curso de um rio no sertão que Dorival tanto cantou. Ah, poder ser verso em vez de parágrafo! Deixar que o sentimento não precise ser explicado, apenas sentido — na nota do piano de Chico, na linha tênue que separa o sonho do chão. Querer ser compositor, orquestrar os afetos como quem costura um sonho à realidade, sem ter que reportar o gol, sem ter que julgar a falta. Mas ser poeta, talvez, não seja abandonar o posto, e s...