Conto da gíria

 Hoje recebi um daqueles vídeos que vivem rodando no TikTok e no Instagram. Estou rindo até agora — da minha própria reação e da cara de interrogação da Marina, que, coitada, parecia que estava assistindo a uma palestra em latim.

O vídeo era um clássico de nostalgia barata, daqueles que te fazem sentir com 150 anos. A gente começou a brincar, inventar diálogos como se estivéssemos naquele tempo antigo, de banco de jardim, de caminhada sem pressa pela Rua Direita, sem nem saber o que significava "boleto" ou "ansiedade". Era um papo reto, sem complicação, só na base da resenha, aquela conversa que vai desenrolando como um carretel sem linha travada.

Aí me deu uma vontade danada de tentar resgatar as gírias do meu tempo. Confesso: não é tão fácil quanto parece. A gente acha que tem o vernáculo na ponta da língua, mas a memória resolveu tirar férias coletivas. Por isso, já vou pedindo ajuda aos universitários pra reconstruir esse nosso vocabulário que, aparentemente, caiu no ostracismo.

Antes de qualquer coisa, chamei meu broto para dar uma chegada na Rua do Biongo. A missão era nobre: comprar um Lancaster. Eu precisava ficar maneiro, cheiroso, pronto para impressionar as meninas — um autêntico conquistador barato. 

Chegando lá, a sorte sorriu: o vendedor era da minha patota! Pensei comigo mesmo: “agora vai, o preço vai sair supimpa”. Mas a realidade, como sempre, veio na voadora. Abri a carteira e só tinha uma traça e um cartão de biblioteca vencido — a situação é de pindaíba absoluta. Não tive outra escolha a não ser usar o velho e confiável recurso: 

— Ô chefe, quebra esse galho, pendura aí para mim?

Não deu. O homem virou uma estátua de gelo atrás do balcão. Mas, pelo menos, o camarada tentou ajudar. Ele sussurrou, como se estivéssemos tratando de um contrabando de esmeraldas, que ali na Capivara tinha um sujeito meio careta, um tanto largado, que arrumava um perfume falsificado. O negócio parecia meio borocoxô, duvidoso até a alma. Pensei, pensei… e, pelo medo de terminar com cheiro de naftalina vencida, saí de banda.

No meio desse caos, a Marina — que não entende bulhufas de histórias locais e olha para o nome das nossas ruas com a mesma estranheza de quem vê um objeto alienígena — soltou:

— Que raios de nomes são esses? De onde saiu "Rua do Biongo"?

E aí, amigo, começou outra viagem. 

A Rua da Capivara, por exemplo, não tem um capivara sequer, e nem deveria se chamar assim — era apenas o caminho para o lugar que hoje é conhecido como Palma. A Rua das Flores? Esqueça a poesia. Se você pensou em pétalas e primavera, errou feio; a origem é tão prosaica que chega a doer.

E olha que curioso: nossa primeira casa própria foi na Rua do Lixo. Sim, exatamente isso que você leu. Um charme, né? O imóvel, na verdade, é um prolongamento da reta que vem lá da Rua Direita, o epicentro da civilização da nossa época. Se dobrar à esquerda ali, você cai na Rua da Laje — com J mesmo, como manda o figurino — que, para choque da Marina, é apenas o caminho para Laje do Muriaé.

História puxa história e, quando a gente viu, a Marina já estava anotando tudo num caderninho como se fosse uma etnógrafa explorando uma tribo esquecida na selva urbana. 

E isso aqui, pode ter certeza, ainda vai ter continuação. Tem muita gíria empoeirada no porão do cérebro pra resgatar e muita rua que ainda precisa ser percorrida na memória. Marina que se prepare, porque a próxima aula é sobre como a gente paquerava antes da existência do direct. Preparem os lencinhos (ou melhor, as carteiras vazias).

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