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Mostrando postagens de abril, 2026

Qual o endereço?

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  Uma das boas histórias que ficaram esquecidas, dessas que a gente guarda mais no riso do que no papel. “Qual o seu endereço? Preciso de um documento seu, urgente. Me orienta o que fazer. Me responda assim que chegar.” Era um amigo dos tempos do Hotel Regente, no Rio de Janeiro. Precisava de um documento meu que estava em Miracema para fechar um negócio — e estava aflito com a pressa. Respondi sem titubear: — Coloca no envelope: Bar do Seu Vicente, aos cuidados do Zebinho. Em frente à Prefeitura, Miracema, RJ. Hoje parece piada. Na época, também pareceu. Ele não acreditou. Achou que eu estava brincando. Aí reforcei, pelo telefone fixo mesmo — porque não existia celular, muito menos computador: — Faz o seguinte: manda junto um envelope com seu endereço, que meu pai devolve com o documento. Só precisa do seu nome. Ele riu. Me zoou. Mas fez exatamente como eu disse. Dez dias depois, o documento estava nas mãos dele. Negócio fechado. Apartamento comprado em Copacabana. E até hoje ele ...

Pelas ruas da Terrinha

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  Hoje recebi um daqueles vídeos que vivem rodando no TikTok e no Instagram. Estou rindo até agora — da minha reação e da Marina. A gente começou a brincar, inventar diálogos como se estivesse naquele tempo antigo, de banco de jardim, de caminhada sem pressa pela Rua Direita, sem pensar no amanhã. Um papo reto, sem complicação, só na base da resenha. E aí me deu uma vontade danada de tentar resgatar aquelas gírias. Confesso: não é tão fácil quanto parece. Por isso, já vou pedindo ajuda aos universitários pra lembrar e reconstruir esse nosso vocabulário perdido. Antes de qualquer coisa, chamei meu broto pra dar uma chegada na Rua do Biongo. A ideia era comprar um Lancaster pra ficar maneiro, cheiroso, pronto pra impressionar as meninas. Chegando lá, melhor ainda: o cara da loja era da minha patota. Pensei: “agora vai sair um preço supimpa”. Só que a realidade bateu — estou na pindaíba. Tive que tentar aquele velho recurso: “pendura aí pra mim”. Não deu certo. Mas o camarada ainda te...

90 anos - Parabéns Miracema

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Falar desta "Princesinha do Noroeste" é falar de sua gente. É evocar os personagens que caminham por nossas ruas e que, com sua simplicidade e sabedoria, dão cor ao cotidiano. É sentir o calor do povo mais acolhedor que o interior fluminense já conheceu, uma gente que abre a porta de casa e o coração com a mesma naturalidade. A Tradição que se Renova ​ Nossa Exposição não é apenas um evento; é o pulsar de uma identidade. É onde o passado e o presente se encontram para celebrar nossa força e nossa alegria. Ser o narrador dessas memórias é um privilégio que a vida me deu. E se hoje recebo comendas, títulos e carinho, nada disso supera a amizade sincera que brota em cada esquina. ​Um Compromisso Eterno ​Contar a sua história é a minha forma de te enaltecer, Miracema. É retribuir tudo o que você me oferece sem pedir nada em troca. Sigo narrando seus encantos, com a alma leve e o olhar atento, sabendo que o meu destino está entrelaçado ao seu. ​Até que um dia, por aqui, eu fiq...

No balcão do Seu Vicente

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  Na fila do pão, nesta manhã de sexta-feira, o Edu quis saber detalhes sobre o bar do meu avô, lá em Miracema, onde nasci, cresci e me tornei adulto. Bastou a pergunta para que as lembranças viessem com força — e junto delas, as gargalhadas, quando recordei alguns “causos” do nosso personagem principal, Vicente Dutra. A roda de conversa se animou, e aquela manhã na padaria se tornou uma das mais longas e saborosas. E como sexta-feira é dia de bar, drinks e petiscos, minha memória me levou aos finais de semana no famoso bar da Praça Ary Parreiras. Localização privilegiada: em frente à Prefeitura, ao lado do Tiro de Guerra 217, um pouco acima da Igreja Matriz. Era ali que a família se reunia para trabalhar unida e animada, especialmente nas festas de Santo Antônio, quando o movimento era intenso e eu pouco podia aproveitar a festa — o bar faturava, e era preciso ajudar. Naquele tempo não havia moda de cadeiras nas calçadas. O salão era amplo, com uma dúzia de mesas sempre cheias. Ca...

Saudade da mana Eliane

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Minha mana Eliane faz uma falta danada, principalmente nestes momentos em que tento escrever as memórias da minha vida em nossa Miracema. Se sei alguma coisa e me lembro de tantas outras, é porque sempre havia a prosa com ela — sobretudo depois que nos mudamos para Campos, em 1985. Entre uma cerveja e outra, ela adorava bebericar comigo um vinho ou uma cerva. E quando chegava no ponto, soltava os causos, descrevendo tim-tim por tim-tim. Como este, do famoso Neca Solão: Um dia, essa figura singular chegou ao bar do meu avô — outra figuraça — completamente nu. Meu avô, gozador que era, perguntou: — Neca, que roupa é essa? E ele, muito sério, respondeu: — “Seu” Vicente, acho que estou nu… não está vendo? Histórias assim eram o tempero das nossas conversas. E Eliane tinha um talento especial para narrar, como quando contava o namoro de Paraoquena com a Perereca (apelido de uma das personagens daquele pedaço da cidade). Segundo ela, os dois namoravam, bem quente, na grama ao lado da Prefeit...

Viva Miracema

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  Hoje, lembrar de Miracema é lembrar-me dos nomes de ruas, tão pitorescos: “Rua Direita”, “Rua das Flores”, “Rua do Café”, “Rua do Biombo”, “Rua da Lage”, “Rua do Sapo”, “Rua de Cima”, “Rua de Baixo”, “Rua da Capivara”, “Jardim de Cima”, “Jardim de Baixo”, “Rua do Cruzeiro”... ... ... Tadeu já escreveu... Carlos Augusto já escreveu... Eu, Adilson Dutra, já escrevi... mas os personagens da nossa Miracema não saem da nossa memória, e quando será o final de tudo isto? Quando será? Sei que antes de minha morte isto nunca acontecará.  Estarei sempre tentando lembrar figuras impagáveis como Seu Botelho, o pai do Thiara, o homem que me disse - Escreva uma coluna do futebol, você será colunista no jornal A Voz do Povo, de Bom Jesus. E estou aqui, até hoje falando do futebol e escrendo minhas colunas.  Seu Scilio Faver, como não lembrar era o nosso médico. Cortei a testa, batendo na trave, lá no Rink, e cheguei sangrando na farmácia e ele: - Senta aí, vou te costurar. Medrei. Lá ...

Figuras lendárias da Terrinha

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Pesquisa e texto original do historiador Tadeu Miracema.  Nossas figuras lendarias e folclóricas, como  Joel do Hospital, serão sempre lembradas, ele por ser um cidadão simples, mas quando pedem para escrever sobre ele  vem  carregado de sentido — porque falar de Joel é, no fundo, falar de uma Miracema que resiste na memória, mesmo quando o tempo insiste em apagar seus contornos. Aproveito então a deixa.  Fica aqui o registro. E, junto com ele, uma pequena procissão de figuras que ajudaram a dar alma à nossa cidade. Porque toda cidade tem seus monumentos de pedra e cal… mas são aspessoas que realmente a sustentam. Outras figuras folclóricas, dessas que marcaram gerações e permanecem vivas na lembrança de quem viu, conviveu ou simplesmente ouviu falar.  Cada um com suas manias, seus jeitos, suas histórias — patrimônios vivos de uma época em que a vida corria mais devagar e os personagens eram reconhecidos pelo nome, pelo apelido e até pelo caminhar. Já falei...

Enredo do meu samba

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                                 O Samba que a Saudade Escreveu ​Dia de fisioterapia costuma ser sinônimo de manhã perdida, entre exercícios e o inevitável "jogar conversa fora" nos corredores da clínica. Mas a sorte me sorriu ao encontrar um veterano miracemense, há anos longe da terrinha. Entre lembranças de carnavais e festas de Santo Antônio, ele começou a desfiar perguntas sobre os antigos moradores do meu reduto. ​Fui respondendo com o peito cheio de saudade: do Caboclo ao Vicente Dutra. Ao voltar para casa, o destino completou o ciclo: deparei-me com uma foto do saudoso Calil Saluan Neto no perfil de sua filha, Dina. Calil era o mestre do Carnaval e da publicidade volante. Naquele instante, as vozes se fundiram. O papo com Abraão na clínica e a imagem de Calil me transportaram para uma conversa antiga, sentados em um banco de jardim com propagandas do comércio de outrora. ​— Adilson — dissera-...

Caminhando e cantando

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            Nosso som das varandas ​Caminhando pelas ruas de Campos, como faço todas as manhãs após o indispensável "papo na fila do pão" — o melhor programa do dia —, sigo com o Spotify me acompanhando. Enquanto ouvia as playlists que crio diariamente para esse fim, me flagrei pensando, sem surpresa, nos tempos dos bailinhos nas varandas da minha Miracema. Lembrei do nosso conjunto, liderado pelo Bebeto Alvim, que não chegou a vingar. Foi por isso que aceitei o convite do Maestro José Viana para ser o crooner — era assim que chamávamos os cantores de conjuntos, que hoje viraram "vocalistas de bandas". ​Mas vamos ao tema, para não alongar a leitura dos amigos. Enquanto andava com os fones, mergulhado na playlist "Jovem Guarda e afins", comecei a cantarolar em voz alta. Um desconhecido me interpelou: — Deve ser muito bom caminhar com essas músicas, né mesmo? Elas nos levam de volta a um passado musical que, até hoje, não foi substituído. ​E seguiu seu camin...

As faixas do Buru

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Buru, o homem que escrevia a cidade Silvio Felix — mas ninguém o chamava assim. Em Miracema, bastava dizer Buru que todo mundo sabia de quem se tratava. E não era só um nome: era quase um patrimônio afetivo da cidade. Começou no Cine Sete, daqueles cinemas que não exibiam apenas filmes, mas encontros, suspiros e domingos inteiros. Com o fechamento, foi para o Cine XV — e ali já não era só o rapaz da lanterna que iluminava o caminho dos outros. Começava a iluminar a cidade com tinta. Nos anos 60 e 70, quando não havia algoritmo nem impulsionamento, era o pincel que fazia o anúncio ganhar corpo. E Buru tinha um dom raro: não pintava só letras, pintava expectativa. Filme novo, jogo no Ferradurão, baile no Aero Clube — tudo passava pelas mãos dele antes de acontecer de verdade. Boêmio, seresteiro e dono de uma prosa que corria solta como rio em cheia, Buru também era espetáculo fora do trabalho. No Bar Pracinha ou na Sinuca do Careca, era onde suas histórias viravam lenda — e seus bordões,...

A Velha Senhora faz 90 anos

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     Nove décadas: Parabéns, Miracema Por onde andei, levei comigo a certeza de que o mundo é grande — mas nunca maior do que a lembrança que a gente carrega. Saí da minha Miracema e fui longe. Cheguei a Viena, guiado pelo sonho de minha mãe de conhecer os caminhos de Sissi, a imperatriz. Passei por Paris, onde ela, em pensamento, ainda podia ser a Lili do cinema. Aprendi idiomas como quem aprende atalhos: o português bem dito, o inglês improvisado de balcão de hotel, o espanhol ouvido na televisão, o italiano puxado na convivência. Em muitos lugares, me fiz entender. Em outros, como Praga, Budapeste ou Varsóvia, descobri que o silêncio também é uma forma de escutar o mundo. E o mundo se oferece até na mesa. Em Lisboa, reencontrei o nosso bacalhau, como se nunca tivesse saído de casa. Nas cidades mais distantes, vi a massa — nossa velha conhecida — atravessar fronteiras e se servir em pratos que falavam todas as línguas. Mas foi rodando o próprio Brasil que entendi melhor...

Nos bailes da vida

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  Na última vez em que fui a Miracema — claro, na Expo/2017 —, almoçando no Tio Nilo's, o famoso bar e restaurante do Cabeção, o papo girou em torno dos bailes e dos grandes conjuntos que passaram pela "terrinha" nos anos 60 e 70. Era a época em que o Aero Clube fervilhava e o Grupo Escolar Ferreira da Luz tornava-se a opção para os grandes eventos enquanto o clube passava por reformas no piso e na estrutura. ​ Lembramos dos grandes dançarinos que eu admirava de perto, como os dois Maurícios — o Siqueira e o do Bruno de Martino — e das clássicas confusões no bar. Recordamos o rigor do traje "passeio completo"; era um tal de jogar gravata da sacada para o amigo conseguir passar pela portaria sem problemas. Gente bonita, bem vestida e música de alto nível, sempre com os maiores músicos do país no palco principal. ​Claro que me veio à mente o baile com o famoso Lafayete e Seu Conjunto, no Aero Clube. E, com igual clareza, lembro-me do grande baile no Ferreira da Lu...

Miracema em mim 2

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  Há muito tempo Miracema não me pegava assim, pela emoção.  Não me lembro da última Festa de Maio que me fez sentir de novo aquele menino da Banda Marcial do Colégio Miracemense, soprando corneta com o peito estufado e o coração batendo no compasso do dobrado. Talvez nunca tenha ido embora — estava só adormecido, esperando um desfile desses para acordar. E acordou. A cidade estava ali, inteira — ou quase. Porque, ao mesmo tempo em que vi gente sorrindo, vi também olhos carregados. Não era tristeza por estar ali. Era tristeza por tudo aquilo que já não está mais. Mas bastava um abraço para mudar tudo. E como teve abraço. Teve riso alto, teve história atravessada, teve memória disputada no grito — como sempre foi. Porque miracemense não lembra em silêncio, lembra vivendo de novo. — Você lembra da laranja do quintal do seu Lino? E pronto. Bastou isso. O cachorro volta a correr, o moleque volta a fugir, e até o ardor dos tiros de sal na perna vira medalha de guerra. — No pião voc...

Miracema em mim

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Há muito tempo eu não via uma Festa de Maio tão apaixonante. Talvez desde os meus tempos de moleque, quando soprava minha corneta na Banda Marcial do Colégio Miracemense. Fazia tempo que eu não me sentia tão entusiasmado em participar de um desfile pela emancipação do nosso município — aliás, não fui só eu: era um sentimento que parecia tomar conta de todos ali presentes. Vi rostos tristes — não por estarem ali, mas pelo momento atual da cidade. E vi rostos alegres — não pelo momento da cidade, mas pela simples alegria de estar ali, revendo amigos, vivendo um reencontro que trouxe à tona lembranças maravilhosas. Vi lágrimas. Não de tristeza, mas de alegria. Lágrimas de saudade — dessas boas, quase doces — que marcaram o desfile e esse encontro de gerações. Abraços, sorrisos, causos, recordações… essa era a verdadeira razão do chamado da turma do grupo “Em Miracema e no Cinema”. Foi por isso que tantos vieram neste feriado prolongado: para homenagear não só a cidade, mas, sobretudo, a a...

Nas águas do Ribeirão

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  Sentado às margens do Ribeirão Santo Antônio, observando a descida da água — pouca, quase inexistente —, fui tomado pelas lembranças dos bons mergulhos e das longas descidas da Usina até o Aeroclube, nos tempos de cheia do nosso ribeirão. Não foram poucas as vezes em que eu e minha turma nos aventuramos a percorrer, a nado ou em boias feitas de câmara de ar, aqueles dois ou três quilômetros em busca de um pouco de adrenalina. Dizem que as obras de desvio de curso e as construções às margens enfraqueceram o Santo Antônio. Pode ser. Mas o Rio Pomba, o Paraíba e tantos outros Brasil afora sofrem do mesmo mal. E eu sigo acreditando que o homem — e seu descaso — é o principal responsável pela agonia dos nossos rios. Hoje, as águas só crescem nos períodos de chuva forte. Em compensação, já não há o risco das grandes enchentes, como a de 1971 e outras que vieram depois. Dizem que foi justamente esse trabalho de “correção” e limpeza que trouxe essa aparente segurança — e que, ao mesmo te...

Viver ou sonhar? Eis a questão

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  Por estes dias, depois de colocar no mundo o Miracema em Mim, vieram os debates — daqueles bons, que fazem a gente pensar com calma — sobre uma velha questão: viver do passado ou contar o passado? Há uma diferença grande entre as duas coisas. Viver do passado é como morar numa casa onde o relógio parou. É repetir lembranças até que o presente perca o lugar. Já contar o passado é diferente: é acender a luz da memória para iluminar o caminho que trouxe a gente até aqui. Eu, que me arrisco como cronista da vida, não teria o que contar se não tivesse vivido. Não invento enredos, não fabrico personagens. Não sou romancista. Sou desses que juntam pedaços de vida e espalham sobre o papel. O que escrevo carrega o peso e a leveza do que foi real — vivido por mim ou confiado a mim. Miracema não foi cenário. Foi chão. Durante 35 anos, vivi ali com intensidade de quem não passa — de quem fica, observa, participa. Estive em quase tudo. Vi de perto histórias da política, do esporte, da vida co...

Uns chopes no Pinguim

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  Cinco caipiras, um barril e a eternidade Tem cidade que a gente visita. E tem cidade que a gente vive — mesmo que por dois dias. Ribeirão Preto, pra mim, sempre foi assim: mais do que destino, virou cenário de memória. Nos anos 80, eu ainda era aquele sujeito em formação — curioso, meio atrevido, desses que aparecem sem ser chamado e ficam. Ia pra São Paulo sempre que podia, grudava no José Maria de Aquino e me infiltrava no mundo que eu queria um dia chamar de meu. Redação, viagem, estádio… eu estava sempre por perto. Um “malinha”, como diria Fausto Silva, mas com sede de aprender. E aprendi. Aprendi vendo gente grande trabalhar, ouvindo mais do que falando — embora às vezes eu falasse demais. Gente como Antero Greco, que tinha a elegância de quem sabia tudo sem precisar provar nada. Eu dava meus pitacos sobre futebol internacional, ele escutava como se aquilo importasse. Talvez nem importasse. Mas pra mim, importava tudo. Foi nessa estrada que Ribeirão entrou de vez na minha hi...

Um trem azul em Vila da,Serra

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  Viver é melhor que sonhar  Sentado na calçada do condomínio, aqui em Vila da Serra, sem canudo ou canequinha, mas com o sol batendo direto na cabeça, deixo o pensamento correr solto — desses que só aparecem quando a gente não chama. Fico imaginando como conseguem fazer canções. Letras, no caso. Como alguém junta meia dúzia de palavras e, de repente, desmonta a gente por dentro. Tem música que não toca — atravessa. E aí me vejo embarcando num trem azul, desses que não param em estação nenhuma. Não tem chegada, nem despedida. Só leva a gente pra um passado recente, ainda quente, ainda vivo. No fone, Paulo Diniz pergunta: “como vou deixar você?”. E eu fico aqui, sem resposta. Porque, meu caro, a vida às vezes só anda mesmo em linhas tortas. Como é que deixa, se ainda ama? Logo depois, como se fosse combinado, aparece Belchior. E aí já era. Ele vem com aquele jeito de quem entende tudo sem explicar muito. Eu não sou um Rapaz Latino-Americano, é verdade — mas estou cansado. Cansa...

Meu quitute favorito

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  Fiz uma série de exames e, ao final, depois de conversar com especialistas, chegamos à conclusão de que era alergia a frutos do mar. Nunca mais comi e nunca mais tive problema. Porém… sempre há um porém: o bacalhau não foi banido, e continuei comendo tranquilamente — mas com algumas precauções, como conto abaixo. A paixão pelo bolinho de bacalhau continuou. Em um bar em Campos, havia um daqueles que, só de olhar, dava água na boca. Certo dia, resolvi criar coragem e entrar para experimentar. Como já era quase hora do almoço, pedi para viagem. — Separe meia dúzia de bolinhos de bacalhau e coloque em um pratinho para eu levar. O dono do estabelecimento gritou: — Saem seis bolinhos de bacalhau para o Adilson Dutra! A cozinha se movimentava enquanto eu conversava com o dono, sentado na mesa da calçada. Contei sobre minha alergia a frutos do mar e, principalmente, ao peixe merluza. Foi aí que o proprietário gritou, bem alto: — Suspende o bolinho de bacalhau do Adilson Dutra! Levei um ...

Escolha o seu pastel

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                O pastel da vovó Pastel é ou não um dos alimentos mais perfeitos já inventados? Pergunto sem medo da resposta, porque no fundo ela já está pronta: é sim. E não é só pela massa crocante ou pelo recheio generoso. Pastel é mais do que comida — é memória embrulhada em papel de feira. Outro dia me peguei nessa discussão antiga, dessas que não levam a lugar nenhum, mas dizem tudo: queijo ou carne? Há quem defenda o queijo com fervor, aquele que estica, que desafia a gravidade e a elegância. Há também os fiéis da carne, mais discretos, mais firmes, que gostam do recheio bem temperado, sem exageros, sem caldo escorrendo. Eu, confesso, nunca tive tanta dúvida assim. O meu sempre foi o da vovó. Carne com batatinha bem picada, tudo no tamanho certo, sem molho, sem invenção. Um pastel sequinho, crocante, daqueles que fazem barulho na primeira mordida e silêncio respeitoso depois. A batata não estava ali por acaso — ela segurava o sabor, dava c...