As faixas do Buru
Buru, o homem que escrevia a cidade
Silvio Felix — mas ninguém o chamava assim. Em Miracema, bastava dizer Buru que todo mundo sabia de quem se tratava. E não era só um nome: era quase um patrimônio afetivo da cidade.
Começou no Cine Sete, daqueles cinemas que não exibiam apenas filmes, mas encontros, suspiros e domingos inteiros. Com o fechamento, foi para o Cine XV — e ali já não era só o rapaz da lanterna que iluminava o caminho dos outros. Começava a iluminar a cidade com tinta.
Nos anos 60 e 70, quando não havia algoritmo nem impulsionamento, era o pincel que fazia o anúncio ganhar corpo. E Buru tinha um dom raro: não pintava só letras, pintava expectativa. Filme novo, jogo no Ferradurão, baile no Aero Clube — tudo passava pelas mãos dele antes de acontecer de verdade.
Boêmio, seresteiro e dono de uma prosa que corria solta como rio em cheia, Buru também era espetáculo fora do trabalho. No Bar Pracinha ou na Sinuca do Careca, era onde suas histórias viravam lenda — e seus bordões, patrimônio oral.
Mas o palco principal era mesmo a calçada da Rua do Café. Ali ficava seu “ateliê”, sem porta, sem placa, mas com clientela fiel. Era chão batido, tinta aberta, pano esticado e dignidade no ofício. Dali saía o sustento — e um pedaço da identidade visual de Miracema.
E como toda boa história de interior, chega o dia em que a vida resolve dar uma piscadinha.
Na época do Bandeirantes — time forte, bancado pelo deputado Luiz Fernando Linhares — as faixas eram quase um ritual. Tudo organizado, tudo previsto. Buru recebia o bilhete, pintava, a cidade se enfeitava.
Até que, num desses dias, o bilhete veio curto, apressado, quase telegráfico:
“Buru, domingo o adversário é o Nacional, de Muriaé. A faixa tem que ter os mesmos dizeres de sempre. Abraço.”
Era o suficiente. Ou parecia.
Buru, talvez já inspirado além da conta, foi para sua calçada e fez o serviço. Caprichado, como sempre. Entregou tudo no dia seguinte.
Quando as faixas começaram a ser estendidas pela cidade, veio o espanto — seguido de riso:
“Domingo, 15h, Nacional de Muriaé, os mesmos dizeres de sempre.”
Não faltava nada. Nem sobrava. Estava tudo ali — inclusive a instrução.
Avisado, o deputado fez o que só gente grande sabe fazer: riu. Riu alto, riu fácil, riu como quem entende que certas trapalhadas são presentes da vida.
Mandou refazer.
No dia seguinte, com as ideias no lugar e a mão firme de sempre, Buru entregou o que Miracema já conhecia:
Domingo – 15h – No Ferradurão
Bandeirantes x Nacional, de Muriaé
Perfeito. Como sempre foi.
Mas veja… o que ficou não foram apenas as faixas certas.
Ficou a história errada.
Porque a faixa corrigida cumpriu seu papel e desapareceu com o tempo. Já a outra — a dos “mesmos dizeres de sempre” — essa nunca mais saiu da memória de quem viu, de quem ouviu, de quem ainda hoje conta.
E talvez seja aí que more o verdadeiro talento de Buru.
Não apenas em escrever o que precisava ser dito.
Mas, sem querer, escrever aquilo que jamais seria esquecido.

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