Miracema em mim 2
Há muito tempo Miracema não me pegava assim, pela emoção.
Não me lembro da última Festa de Maio que me fez sentir de novo aquele menino da Banda Marcial do Colégio Miracemense, soprando corneta com o peito estufado e o coração batendo no compasso do dobrado. Talvez nunca tenha ido embora — estava só adormecido, esperando um desfile desses para acordar.
E acordou.
A cidade estava ali, inteira — ou quase. Porque, ao mesmo tempo em que vi gente sorrindo, vi também olhos carregados. Não era tristeza por estar ali. Era tristeza por tudo aquilo que já não está mais.
Mas bastava um abraço para mudar tudo.
E como teve abraço.
Teve riso alto, teve história atravessada, teve memória disputada no grito — como sempre foi. Porque miracemense não lembra em silêncio, lembra vivendo de novo.
— Você lembra da laranja do quintal do seu Lino?
E pronto. Bastou isso.
O cachorro volta a correr, o moleque volta a fugir, e até o ardor dos tiros de sal na perna vira medalha de guerra.
— No pião você até se virava… mas no zep e no finco eu mandava!
E lá estavam dois senhores, com mais passado do que futuro pela frente, brigando como dois garotos na Barraca do Bode. Bonito de ver.
As peladas do Rink? Essas não se discutem. São patrimônio da infância de Miracema. Quem discorda é porque jogou mal — ou então caiu na conversa de que o Ginásio era melhor. (Era nada.)
E as meninas? Ah, as meninas…
Bailes dos Grêmios, domingueiras do Aero Clube, olhares cruzados na calçada da Rua Direita depois do Cine XV… ali se construíram histórias que nem o tempo teve coragem de apagar.
E no meio disso tudo, a pergunta mais séria da história da cidade:
— Qual era melhor: o bife do Angeludo ou o do Farid?
Discussão inútil. Porque alguém, mais honesto que todos, matou a questão:
— A fome era braba… qualquer um virava banquete.
Genial.
Mas nem tudo é riso.
Quando o olhar escapa e cai na Rua Direita de hoje… aí o peito sente. E sente forte. Cadê o Pracinha? O Central? O Mocambo? O Líder? Cadê a sorveteria do Abdo?
Sumiram.
E junto com eles, um pedaço da gente.
Aí alguém pergunta: “E os meninos de hoje?”
Melhor nem responder.
Hoje não é dia de comparação. Comparar é perder. Sempre.
Hoje é dia de voltar.
Voltar pro Estádio Municipal, pro Buraco da Égua, pro campo do América. Voltar pras peladas do Rink, do Ginásio, pra bola pesada, pro gol improvisado, pra alegria que não precisava de muito.
Hoje é dia de chamar de novo o Milton Cabeludo, o Braizinho, o Silvinho, o Genuíno… de vestir as camisas do Miracema, do Tupã, do Esportivo, da Associação, do Operário… de trazer de volta o futebol que não era só jogo — era identidade.
Hoje é dia de ouvir, lá do fundo da memória, os acordes dos maestros Zeca Garcia e Antônio Galieta, a batuta firme dos professores Carmindo Feijó e Ernestino… gente que formou mais do que músicos — formou sentimento.
E hoje, principalmente, é dia de aceitar uma coisa simples:
A gente vive de saudade.
Como dizia Osmar Barbosa: “Saudade mata, é verdade, mas dessa morte me esquivo; como morrer de saudade, se é de saudade que vivo?”
E seguimos.
Falando da velha Rádio Emissora de Miracema, que fez gigante o Ary Leite, quando ele ainda era só o Aristides. Lembrando da voz de José Hamilton Vaz. Reverenciando a Princesinha — a nossa Princesinha — que um dia fez a cidade parar pra ouvir um jogo no rádio como se fosse final de Copa do Mundo.
E era.
Agora chega.
Porque se eu continuar, não escrevo — choro.
E tem gente me esperando lá na Exposição.
E reencontro não combina com atraso.
Vamos?
Um abraço desse miracemense teimoso, que se recusa a deixar morrer aquilo que fez a gente ser quem é.
Porque cidade nenhuma vive só de presente.
Cidade vive de memória.
E Miracema… ah, Miracema ainda respira — mesmo que, às vezes, só por lembrança.

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