A Velha Senhora faz 90 anos

    Nove décadas: Parabéns, Miracema

Por onde andei, levei comigo a certeza de que o mundo é grande — mas nunca maior do que a lembrança que a gente carrega. Saí da minha Miracema e fui longe. Cheguei a Viena, guiado pelo sonho de minha mãe de conhecer os caminhos de Sissi, a imperatriz. Passei por Paris, onde ela, em pensamento, ainda podia ser a Lili do cinema.

Aprendi idiomas como quem aprende atalhos: o português bem dito, o inglês improvisado de balcão de hotel, o espanhol ouvido na televisão, o italiano puxado na convivência. Em muitos lugares, me fiz entender. Em outros, como Praga, Budapeste ou Varsóvia, descobri que o silêncio também é uma forma de escutar o mundo.

E o mundo se oferece até na mesa. Em Lisboa, reencontrei o nosso bacalhau, como se nunca tivesse saído de casa. Nas cidades mais distantes, vi a massa — nossa velha conhecida — atravessar fronteiras e se servir em pratos que falavam todas as línguas.

Mas foi rodando o próprio Brasil que entendi melhor quem somos. Numa viagem pelo Sul, a cada parada, eu buscava Miracema nas paisagens alheias. Porque Miracema, agora com noventa anos, não cabe em um mapa — ela vive entre extremos: já vestiu luxo, já suportou ausências, já foi abundância e já conheceu a escassez. Como o Brasil, aliás, que se reinventa mesmo quando parece à beira do cansaço.

E ainda assim, seguimos. Fortes como as histórias que nos sustentam. Nossos heróis não estão apenas nos livros — estão nas ruas, nos nomes que aprendemos a respeitar desde cedo: Ventura Lopes, Altivo Linhares, Melchiades Cardoso, Jofre Salim… gente que construiu, à sua maneira, o chão que pisamos.

Nas minhas andanças, contei Miracema como quem conta um segredo bonito. Falei de suas esquinas, de suas festas, de seu povo. Levei gente até lá — e vi acontecer o que sempre soube: talvez a cidade nem sempre impressione à primeira vista, mas o seu povo… ah, o seu povo fica. Encanta. Acolhe. Até faz nascer amor em terra de passagem.

Em Valência, vi uma festa de rua que fez meu coração voltar correndo. Entre luzes e música, reconheci algo antigo: os carnavais da Rua Direita, os pierrôs, as colombinas, a alegria solta que um dia foi nossa marca. Não era igual — mas era irmão. Porque festa de verdade não mora no luxo, mora na alma.

E foi longe, muito longe, na Polônia, que entendi o tamanho daquilo que carregamos sem perceber. Chamaram alguns ao palco para dançar. E lá fui eu — não mais o viajante, mas o menino das audições da professora Onidéia. Quando perguntaram de onde eu vinha, não hesitei:

— Sou de Miracema, a Princesinha do Norte Fluminense.

Porque, no fundo, a gente nunca sai de onde aprendeu a ser.

Anos depois, já na lida do rádio, entre transmissões e histórias, Miracema sempre dava um jeito de aparecer. Até que, num dia qualquer, durante um jogo, um ouvinte pediu a palavra. Era um senhor de noventa anos, com a memória acesa pelo som de um nome.

Falamos de gente, de lugares, da Usina Santa Rosa — pedaços de uma vida que ainda resistiam nele. No fim, perguntou quem eu era.

— Adilson Dutra — respondi.

Do outro lado, veio o tempo inteiro de volta, em forma de pergunta:

— Você é filho ou neto do Vicente Dutra, do melhor bar de Miracema?

E então eu parei.

Porque há momentos em que a vida não se explica — apenas transborda.

Hoje, ao escrever, sinto o mesmo nó na voz, o mesmo peso leve das lágrimas que insistem em cair. Não é tristeza. É pertencimento.

Parabéns, Miracema.

Velha senhora de noventa anos,

você não envelhece —

você permanece.

E permanece viva, inteira, eterna,

no coração de todos os seus filhos.

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