Enredo do meu samba

                                 O Samba que a Saudade Escreveu

​Dia de fisioterapia costuma ser sinônimo de manhã perdida, entre exercícios e o inevitável "jogar conversa fora" nos corredores da clínica. Mas a sorte me sorriu ao encontrar um veterano miracemense, há anos longe da terrinha. Entre lembranças de carnavais e festas de Santo Antônio, ele começou a desfiar perguntas sobre os antigos moradores do meu reduto.

​Fui respondendo com o peito cheio de saudade: do Caboclo ao Vicente Dutra. Ao voltar para casa, o destino completou o ciclo: deparei-me com uma foto do saudoso Calil Saluan Neto no perfil de sua filha, Dina. Calil era o mestre do Carnaval e da publicidade volante. Naquele instante, as vozes se fundiram. O papo com Abraão na clínica e a imagem de Calil me transportaram para uma conversa antiga, sentados em um banco de jardim com propagandas do comércio de outrora.

​— Adilson — dissera-me Calil —, se eu tivesse verba, te daria a missão de contar a história da Praça da Matriz. Você nasceu ali, é um apaixonado.

​Aceitei o desafio no ato. Em minha mente, o desfile da "Unidos no Samba e na Cor" começou a ganhar forma. O enredo? "O Triângulo das Bermudas Miracemense". O abre-alas traria a Fonte Luminosa e o Coreto, símbolos das terras doadas por Dona Ermelinda, onde o povoado fincou raízes.

​O desfile seguiria com as tradições: a Prefeitura, o Tiro de Guerra, o Bar do Vicente e a Loja da Magali. Não esqueceria o boteco do Seu Manoel, vizinho ao Armazém do Jorge. A cabeça girava em ritmo de samba.

​— E o Seu Scilio da farmácia? — Calil parecia soprar em meu ouvido.

​Claro! No conteúdo do enredo, convocaríamos todos: os fazendeiros como Neném Braga, Evaldo Assumpção e João Ramos. Precisou de táxi? Zé Barros. Terno novo? Amaro Leitão. Bateu a fome? O pãozinho da Padaria do Garibaldi Parreiras. Para a beleza, as damas escolheriam: a maquiagem de Dona Darquinha ou o penteado de Dona Cecília, ali na Rua José da Silva Bastos, reduto de mulheres elegantes.

​— E o resto das alas? — insistia o carnavalesco.

​Eu descreveria a Rua Paulino Padilha em detalhes: do perfume na Loja do Tetinho ao conserto de sapato no Deoclides; da "fezinha" no bicho com Seu Cícero ao paletó sob medida no Pepito Serrano. Teria o rigor contábil do Seu Botelho, os doces do Caboclo e da Dona Otera, e o rancho garantido no Seu Custódio. Fecharíamos com o império do Seu Marcelino e o Posto do Inácio, onde o primeiro carro de minha irmã Eliane brilhava sob os cuidados de Mané e Demerval.

Mas, no auge do entusiasmo, a voz de Calil trouxe a realidade, em tons de melancolia:

— Vou parar com o Carnaval, Adilson. Perdi o ânimo... a partida do meu filho me tirou o chão. E, afinal, onde conseguiríamos dinheiro para um enredo desses?

​O sonho do desfile ficou no papel da memória. Hoje, o único instrumento que toca nesse enredo é a saudade — mas ela, pelo menos, não precisa de patrocínio para brilhar.

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