Escolha o seu pastel
O pastel da vovó
Pastel é ou não um dos alimentos mais perfeitos já inventados? Pergunto sem medo da resposta, porque no fundo ela já está pronta: é sim. E não é só pela massa crocante ou pelo recheio generoso. Pastel é mais do que comida — é memória embrulhada em papel de feira.
Outro dia me peguei nessa discussão antiga, dessas que não levam a lugar nenhum, mas dizem tudo: queijo ou carne? Há quem defenda o queijo com fervor, aquele que estica, que desafia a gravidade e a elegância. Há também os fiéis da carne, mais discretos, mais firmes, que gostam do recheio bem temperado, sem exageros, sem caldo escorrendo.
Eu, confesso, nunca tive tanta dúvida assim.
O meu sempre foi o da vovó.
Carne com batatinha bem picada, tudo no tamanho certo, sem molho, sem invenção. Um pastel sequinho, crocante, daqueles que fazem barulho na primeira mordida e silêncio respeitoso depois. A batata não estava ali por acaso — ela segurava o sabor, dava corpo, fazia companhia à carne como quem entende de parceria.
Não era o maior pastel da feira, nem o mais famoso. Mas tinha um detalhe que nenhum outro conseguia copiar: era feito sabendo pra quem ia ser servido. E isso muda tudo.
Em Miracema, havia outros grandes nomes. O do Zé Careca, sempre lembrado nas conversas de fim de tarde. O do Bar Pracinha, que acompanhava histórias, risadas e, às vezes, algumas derrotas bem contadas. Cada um com seu sabor, cada um com sua turma, cada um com seu momento.
Mas o da vovó… o da vovó era diferente.
Talvez porque viesse antes da pressa. Talvez porque fosse preparado sem medida, no olho, no costume, no carinho. Ou talvez porque carregasse algo que receita nenhuma ensina e nenhum tempero substitui: o tempo.
Hoje a gente ainda come pastel. E come bem. Alguns até melhores, diriam os especialistas. Mais recheados, mais bonitos, mais caprichados. Mas falta alguma coisa que não se compra e não se explica.
Falta aquele instante.
O cheiro chegando antes do prato.
A mão queimando de leve.
A primeira mordida sem cuidado.
E a certeza, simples e definitiva, de que naquele momento estava tudo certo.
No fim das contas, a pergunta continua válida: queijo ou carne?
Mas, pra mim, a resposta sempre será outra.
O melhor pastel é aquele que a gente nunca come sozinho — mesmo quando está.

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