Miracema em mim

Há muito tempo eu não via uma Festa de Maio tão apaixonante. Talvez desde os meus tempos de moleque, quando soprava minha corneta na Banda Marcial do Colégio Miracemense. Fazia tempo que eu não me sentia tão entusiasmado em participar de um desfile pela emancipação do nosso município — aliás, não fui só eu: era um sentimento que parecia tomar
conta de todos ali presentes.

Vi rostos tristes — não por estarem ali, mas pelo momento atual da cidade. E vi rostos alegres — não pelo momento da cidade, mas pela simples alegria de estar ali, revendo amigos, vivendo um reencontro que trouxe à tona lembranças maravilhosas.

Vi lágrimas. Não de tristeza, mas de alegria. Lágrimas de saudade — dessas boas, quase doces — que marcaram o desfile e esse encontro de gerações.

Abraços, sorrisos, causos, recordações… essa era a verdadeira razão do chamado da turma do grupo “Em Miracema e no Cinema”. Foi por isso que tantos vieram neste feriado prolongado: para homenagear não só a cidade, mas, sobretudo, a amizade — e o amor pelos amigos que aqui ficaram ou que por aqui passaram.

— Você lembra quando tentou pegar aquela laranja no quintal do seu Lino e o cachorro saiu atrás de você?

A pergunta veio com riso, e a resposta veio na hora — junto com a lembrança dos famosos tiros de sal nas pernas, ali pelas bandas do Ribeirão Santo Antônio.

— Você era bom no pião… mas no zep e no finco eu sempre ganhei de você!

E lá estavam eles, na Barraca do Bode, disputando memória como antes disputavam brincadeira.

As peladas do Rink… ah, essas estão na história de cem entre cem meninos da nossa geração. Comentei isso no domingo, e ninguém discordou. Ou quase ninguém — sempre teve um ou outro para dizer que as do Ginásio eram mais emocionantes. Quem concorda levanta o dedo!

As meninas lembram dos bailes dos Grêmios. Outras, como minha irmã Eliane, se emocionam ao falar das domingueiras do Aero Clube. Mas todas são unânimes: o melhor mesmo eram os passeios pela calçada da Rua Direita, depois da sessão do Cine XV. Era ali que nasciam as paqueras, os namoros, as histórias que ficaram para a vida.

— E aí, qual era melhor: o bife do Angeludo ou o do Farid?

Os mais antigos ficam com o Farid. Os mais novos defendem o Angeludo. Até que alguém resolve a questão com sabedoria:

— A fome era grande… qualquer um descia como um manjar dos deuses.

O coração aperta quando começam as comparações. Nem dá para fazer. Os tempos são outros, o país é outro, a vida mudou. E quando a gente olha para a Rua Direita e não vê mais o Pracinha, o Central, o Mocambo, o Líder, a Sorveteria do Abdo… dá um nó no peito.

E os meninos de hoje? O que fazem?

Não. Não queremos saber.

Deixem essa turma de velhos amigos voltar aos anos 50, 60, 70. Esse é o propósito: reviver tardes de domingo, jornadas esportivas no Estádio Municipal, no Buraco da Égua, no campo do América, nas peladas do Ginásio e do Rink.

Deixem-nos falar do Milton Cabeludo, do Braizinho, do Silvinho, do Genuíno… do Vasquinho, do Miracema, do Tupã, do Esportivo, da Associação, do Operário… do Comércio, do DER… dos times de Paraíso e Flores, que ajudaram a construir o futebol que até hoje mora na memória de quem viveu.

Deixem-nos lembrar dos maestros Zeca Garcia e Antônio Galieta, dos professores Carmindo Feijó e Ernestino — mestres que formaram músicos para as bandas Sete e Quinze. Hoje não é dia de dizer que não se fazem mais músicos como antigamente. Hoje é dia de acreditar que ainda teremos novas bandas para acompanhar a nossa eterna Sete de Setembro, que segue viva como nunca.

Deixem-nos falar de saudade.

Lembro do professor e poeta Osmar Barbosa, que escreveu: “Saudade mata, é verdade, mas dessa morte me esquivo; como morrer de saudade, se é de saudade que vivo?”

Então que vivamos dela.

Deixe-me falar da Rádio Emissora de Miracema, de onde saíram grandes nomes. Um deles, Ary Leite, que brilhou nacionalmente, mas aqui era apenas o Aristides Leite, companheiro da minha tia Marley e do amigo Clóvis Helsink. E como esquecer a voz marcante de José Hamilton Vaz?

Deixe-me falar da Rádio Princesinha — a minha Princesinha — que me deu tanto. Dizem que chegou a ter 99% de audiência… estou exagerando, meu caro Orlando Mercante? Aí de cima, me diga: quantos rádios estavam ligados naquela transmissão de Botafogo x Fluminense, em 1983?

Tá lembrado disso, amigo ouvinte da Princesinha do Norte?

Agora, deixem-me silenciar.

Já falei demais.

É hora de reencontrar a turma lá na Exposição.

Vamos?

Um abraço deste miracemense que, como você, ama — com fé e orgulho — a terra onde nasceu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Miracema em nós

A mesma praça?

Encontro de velhos camaradas