Qual o endereço?
Uma das boas histórias que ficaram esquecidas, dessas que a gente guarda mais no riso do que no papel.
“Qual o seu endereço? Preciso de um documento seu, urgente. Me orienta o que fazer. Me responda assim que chegar.”
Era um amigo dos tempos do Hotel Regente, no Rio de Janeiro. Precisava de um documento meu que estava em Miracema para fechar um negócio — e estava aflito com a pressa.
Respondi sem titubear: — Coloca no envelope: Bar do Seu Vicente, aos cuidados do Zebinho. Em frente à Prefeitura, Miracema, RJ.
Hoje parece piada. Na época, também pareceu.
Ele não acreditou. Achou que eu estava brincando. Aí reforcei, pelo telefone fixo mesmo — porque não existia celular, muito menos computador: — Faz o seguinte: manda junto um envelope com seu endereço, que meu pai devolve com o documento. Só precisa do seu nome.
Ele riu. Me zoou. Mas fez exatamente como eu disse.
Dez dias depois, o documento estava nas mãos dele.
Negócio fechado. Apartamento comprado em Copacabana.
E até hoje ele conta essa história rindo: — Na cidade do Adilson não precisa de endereço. É só escrever “Bar do Seu Vicente” que a carta chega.
E não chegam só as cartas. As pessoas também.
Anos depois, meu velho amigo, parceiro do Banerj e das noitadas musicais, Serginho Fiuza, resolveu aparecer. Perguntou pelo endereço.
Eu disse: — Não precisa. Pergunta a qualquer um onde mora o Zebinho Dutra que te mostram o caminho.
Serginho chegou na rodoviária e fez exatamente isso: — Moço, sabe onde mora o pai do Adilson Dutra?
A resposta veio na hora: — Claro. Aguenta aí que eu te levo. Vou sair agora numa corrida, é só me seguir.
Era o Valdir Chocalho — meu parceiro de futebol, amigo da vida, conhecido também como Valdir do táxi.
Serginho seguiu o carro.
E chegou.
Simples assim.
Coisas de Miracema. Onde o endereço é memória, é nome, é afeto — e, principalmente, é gente.

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