Eu, Julio e,Gutinho 2
O calor de Campos parecia não querer dar trégua. Na sala, o ar pesado de uma tarde de verão insistia em envolver a casa, mas, dentro de mim, a atmosfera era outra. Eu estava ali, aninhado na minha poltrona de sempre, com os olhos fixos na televisão. No palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Erasmo Carlos celebrava seus cinquenta anos de estrada, um monumento de nossa música popular. Mas o ponto de ruptura da minha tranquilidade foi quando as cortinas do cenário da vida pareciam se abrir para mais alguém.
O piano, as cordas, a expectativa — e então, o espetacular Roberto Carlos entrou em cena.
Não foi apenas o encontro de dois ícones da Jovem Guarda. Foi o abraço de duas almas que atravessaram décadas de luzes, sombras e trilhas sonoras. Ao ver o Rei, aquele que cantou todas as nossas desilusões e euforias, deixar que as lágrimas corressem livremente diante do seu amigo de uma vida, meu coração, já vivido e calejado por "tantas emoções", simplesmente capitulou. As lágrimas não foram apenas uma reação ao espetáculo; foram uma resposta imediata a um reflexo espelhado. Chorei como se, naquele palco, eu visse, também, os meus.
A imagem dos dois, o aperto de mão que dizia tudo, foi um túnel de tempo imediato. Num piscar de olhos, o Municipal de luxo deu lugar à poeira amigável da Praça Ary Parreiras, em Miracema. Lá estava eu, o mesmo, mas vinte ou trinta anos mais leve, ao lado do Júlio Barros e do José Augusto Botelho. Éramos, à nossa moda, um trio insubstituível. As camisas sujas de terra nas peladas da rua, os piques organizados sob o olhar dos vizinhos da Prefeitura, as disputas lendárias nos campos de terra batida ou na quadra do Rink. Ali, éramos reis. Não havia contrato, nem agenda; havia a urgência de ser jovem e o privilégio de ter irmãos que não precisavam dividir o mesmo sangue.
Ah, as nossas histórias... Lembrei-me, com um sorriso, do dia em que fui buscar o José Augusto na sua casa. "Thiara", gritei do portão, impaciente, ignorando que o nome de batismo era a lei absoluta naquele recinto. Dona Antônia apareceu no umbral, implacável. "Aqui tem José Augusto", sentenciou ela, com aquela autoridade das matriarcas de outrora, ameaçando a minha própria entrada se eu ousasse profanar aquele domicílio com apelidos de rua. Enquanto eu suava frio, lá dentro, as irmãs do Gutinho — Guta, Terezinha, Luzia — se desmanchavam em risos, num espetáculo de cumplicidade que ainda aquece a memória.
Lembrei-me dos pais, seu Zé Barros e Dona Yolanda, e da beleza discreta da Vera Lúcia. Lembrei-me do seu Botelho, um homem que viu algo em mim antes mesmo de eu saber que escrever era meu destino. Foi pelas mãos dele, naquele espaço no jornal A Voz do Povo, que aprendi que as letras tinham vida própria. Ele me deu um ofício quando eu só pensava em bolas de futebol.
E por falar em bola, nosso ataque não tinha erro. Podíamos não dividir a sala de aula, mas o gramado — ou a quadra — era a nossa escola maior. Do TG 217 sob a severa, porém justa, supervisão do sargento Couto, até as batalhas épicas pelo Gemine V no Rink, vivemos um código de ética que hoje chamam de "amizade". Sessenta anos depois, a vida nos espalhou. Cada um tomou seu caminho, as voltas da terra são cruéis e o destino desenha linhas que nem sempre se tocam, mas, internamente, as sementes estão intactas.
O show acabou, o brilho das luzes do Municipal baixou na tela, mas o silêncio que ficou na minha sala era preenchido por rostos que, para mim, ainda são de rapazes. Eu gostaria de ser poeta, para transformar nossa história em métrica. Gostaria de ser compositor, para emprestar a Roberto e Erasmo uma melodia que falasse das nossas tardes na praça.
Como me faltam esses dons, apenas encosto as costas na poltrona e deixo a letra de Milton ressoar como uma oração particular. Meus dois amigos de fé, meus irmãos camaradas. O tempo passa, as rugas chegam e o coração guarda tudo — as dores, os jogos, as brigas, o futebol, os apelidos proibidos pelas mães — tudo guardado a sete chaves, onde o relógio não consegue chegar.
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