Poeta ou cronista?

 Pousa a pena o cronista, esse fiel escudeiro do tempo, e, por um instante, desabotoa o paletó dos fatos para vestir o linho branco da poesia. Não há melancolia neste intervalo, apenas o doce exercício de ser, por um momento, aquilo que os mestres plantaram em sua alma.

Hoje, a arquibancada silencia. O apito do juiz é substituído pelo sussurro do vento nas copas das árvores que Olavo descreveu tão bem. Não há cronômetro, não há prazo, nem a pressa da primeira página. O papel aceita a calma, a palavra cede à emoção e, enfim, a rima se deixa conduzir, mansa, como o curso de um rio no sertão que Dorival tanto cantou.

Ah, poder ser verso em vez de parágrafo! Deixar que o sentimento não precise ser explicado, apenas sentido — na nota do piano de Chico, na linha tênue que separa o sonho do chão. Querer ser compositor, orquestrar os afetos como quem costura um sonho à realidade, sem ter que reportar o gol, sem ter que julgar a falta.

Mas ser poeta, talvez, não seja abandonar o posto, e sim olhar o mesmo mundo através de uma lente lavada pela lágrima da beleza.

O cronista não deixa de ser, ele apenas se despe da urgência. Ele ainda observa, porque a poesia habita o gesto miúdo, a fila da padaria, o encontro casual na calçada, o sorriso escondido no rosto de um estranho. A diferença é que, em vez de descrever o fato, ele agora tenta traduzir a brisa.

Sente, portanto, essa vontade de compor o silêncio. Como quem busca, entre um acorde de Ary e uma promessa de Roberto, a paz de quem entende que toda história é, no fundo, uma canção mal contada pelo destino.

Não, não há tristeza nesta ausência de chão.

Há, sim, o direito sagrado da suspensão.

Sonha, cronista. Passeia pelos jardins de Bilac, deixa o barco da vida navegar pelos versos de Caymmi. O gramado da vida esperará seu retorno, pois ele sabe, assim como nós, que não existe craque que não aprecie o intervalo entre um jogo e outro — quando a bola para e a alma, finalmente, respira em forma de poesia.

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