O baile da saudade
O Salão Nobre do Clube XV, naquela noite de 13 de outubro de 2012, não abrigava apenas móveis, lustres e paredes. O que se erguia ali era um monumento ao tempo, um portal arquitetado por notas musicais que insistiam em desafiar o calendário.
Do lado de fora, o mundo girava em torno de apostas em reality shows, algoritmos e as frenéticas novidades que as gravadoras empurravam goela abaixo. Mas, dentro do salão, o tempo havia sido submetido a um embargo generoso: o relógio tinha autorização oficial apenas para medir o compasso da música.
O "Baile da Saudade" era o nome no convite, mas seria injusto reduzir o evento a essa etiqueta. Saudade, ali, não tinha gosto de ausência ou de melancolia fina; era, na verdade, a própria presença física daquilo que moldou nossas almas. A banda, esse "The Brothers" que era o conjunto de uma geração, não subia ao palco apenas para tocar repertórios. Eles funcionavam como exorcistas do cotidiano, retirando o cinza dos dias e devolvendo-nos a cromatização dos anos 50 e 60.
Cada acorde que saltava dos instrumentos agia como um disparador químico nas sinapses do salão. Quando os acordes dos Beatles ecoavam, a pista entrava em combustão; não era a dança dos corpos que viam de fora, era a coreografia da memória. Embaixo daquela iluminação, Geraldinho "China" Silveira não conversava apenas sobre fatos passados; ele estava lá, inteiro, nas mesmas ladeiras de outrora. Eliane Tostes Cardoso, minha primeira parceira dos tempos de Aero Clube — quando nossos pais nos seguravam pela mão —, mostrava que o tempo pode levar a agilidade, mas nunca o ritmo que guardamos embaixo da pele.
Sentei-me à mesa com Cremilda Tostes e o tempo se tornou um convidado supérfluo. A conversa corria fácil, como um riacho de água limpa, saltando sobre as pedras dos anos que, milagrosamente, se tornavam pedregulhos pequenos. Celestino e sua Vânia, as Meninas de Miracema — cada sorriso era um testemunho. Éramos fragmentos de um mesmo espelho, quebrados pelo destino e pela distância, mas montados com perfeição naquela noite, colados pela melodia de Roberto Carlos e o arrepio absoluto de um "milhão de amigos".
Houve momentos, nos breves intervalos, em que o silêncio pairou. O peito apertou, uma fração de segundo em que a consciência de que aquele momento terminaria nos rondou. Mas, quando a primeira nota do Creedence voltava a arranhar a atmosfera, o arrepio vencia. Eu olhava ao redor e percebia que, embora nossos mapas geográficos hoje estivessem riscados por distâncias severas, nossos mapas afetivos ainda desenhavam a mesma Princesinha do Norte.
No fim, quando a última canção se perdeu no alto dos vitrais do Clube XV, a sensação não era de encerramento, mas de sobrevivência. Havia gente que, lá fora, perdia a vida esperando pelo próximo paredão de televisão. Nós não. Nós vivemos, na essência da palavra, aquele baile.
Enquanto a porta do salão se fechava atrás de mim naquela madrugada de domingo, eu carregava um fardo leve: a promessa silenciosa, tatuada no lado esquerdo do peito, de que no ano seguinte eu voltaria. Afinal, a saudade pode ter tentado marcar território, mas quem domina a pista somos nós.
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