Nos bailes da cidade

 O tempo em Miracema não corre em linha reta; ele se dobra, como uma nota musical que insiste em ecoar muito depois de a orquestra silenciar. Estar sentado à mesa do Tio Nilo’s, sob o olhar atento do Cabeção, não era apenas almoçar: era uma sessão de arqueologia afetiva. Quando o papo derivou para os anos 60 e 70, o bar pareceu diminuir de tamanho, comprimido pela força das décadas que retornavam em flashes.

Cada nome citado era uma pequena lanterna acendendo na escuridão do passado. Quando o assunto entrou na coreografia dos bailes, vi nitidamente os dois Maurícios — o Siqueira e o do Bruno de Martino — cruzando o salão. Eram presenças magnéticas, quase régios em sua elegância, que faziam o resto de nós parecer aprendizes de gala. Lembrei do "passeio completo", dos ternos impecáveis e daquela estratégia clandestina, mas gloriosa: a gravata lançada da sacada para garantir a entrada de quem não queria perder a noite por uma mera tecnicalidade do traje. Aquilo não era apenas moda; era o uniforme da nossa juventude.

Fechei os olhos e, por um instante, a trilha sonora mudou. O som do tráfego da cidade desapareceu, substituído pela síncope perfeita da orquestra de Waldir Calmon ecoando nas paredes do Ferreira da Luz. Senti o peso invisível de um baile da juventude. Estava ali, um garoto de quinze anos, com a Eliane Tostes Cardoso. Ela era a "Eliane do Altair", dona de uma altura que me deixava um pouco em desvantagem no olhar, mas que conferia ao par uma harmonia deslumbrante. Giramos naquele salão como se o chão pudesse sustentar a eternidade, e naquela época, era exatamente o que ele fazia.

A menção a Booker Pitman trouxe o perfume da sofisticação. Recordar o mestre e a voz de Eliana Pitman não era apenas lembrar de um show, mas da própria noção de excelência que Miracema cultivava. O apelido que Ignácio Pires da Silveira me dera — o “Booker Pitman” particular das nossas esquinas — não era só uma alcunha; era uma honraria. Percebi, ali, que guardávamos esses nomes como quem protege joias em caixas de veludo.

O papo era entrecortado pelos brindes. O “Samba em Berlim” surgiu no cardápio de brincadeiras, uma mistura audaciosa e rústica que fazia o contraponto com o requinte das orquestras de Severino Araújo e da Cassino de Sevilha. Éramos essa dualidade: entre o perfume do gim-tônica e a franqueza da cachaça com Coca, vivíamos a transição dos tempos, a migração dos bailes do velho Aero Clube para o então novíssimo Clube XV. 

Nomes como Windsor, Cry Babys, Los Gringos e o inesquecível Sexteto Rex eram as marcações geográficas da nossa felicidade. 

Quando o salpicão do Cabeção finalmente chegou à mesa, a fome deu lugar a um sentimento nostálgico, quase físico. O sol de Miracema batia do lado de fora, impiedoso em seu presente de 2017, mas dentro daquele restaurante, estávamos protegidos pela sombra de outras eras. Ficamos de nos ver no dia seguinte, para rememorar os feitos do Grêmio Estudantil Alberto de Oliveira, como se pudéssemos reviver os carnavais e os "debuts" com apenas mais uma dose de memória.

Mas veio a segunda-feira. E, em Miracema, a segunda-feira tem a sabedoria dos deuses antigos: ela fecha as portas para que as lendas não sejam banalizadas. O bar, cerrado, tornou-se o guardião final daquelas horas. Saí pelas ruas, percebendo que a maior música que ouvi naquele almoço não foi tocada por orquestra nenhuma, mas pelas vozes de velhos amigos, unidas pelo único acorde capaz de desafiar o tempo: a saudade.

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