Conversa de Botequim - Eita Miracema!
O Armazém, com suas prateleiras de madeira envelhecida e o aroma persistente de café torrado misturado ao lúpulo, é meu templo às sextas-feiras. É ali, entre um brinde e outro, que o tempo se curva e permite que eu viaje. Miracema não é apenas um ponto no mapa; é uma coordenada fixada no centro do meu peito, um lugar para onde sempre retorno através da fala.
Geralmente, minhas memórias encontram ouvidos atentos apenas por educação. Mas, na semana passada, o acaso decidiu ser mais generoso. O homem sentado à mesa, um sujeito de feições marcadas pelo sol de muitas estradas, observava o vazio do boteco enquanto eu evocava as manhãs na terrinha. Era conhecido do Lenílson, dono da casa, mas para mim era um estranho — até que se aproximou e puxou a cadeira.
— Você fala de Miracema com uma saudade que corta, moço — ele começou, já pousando o copo. — Eu conheço bem esse chão.
O início da prosa foi o mel que se espalha. Ele era viajante, um vendedor da antiga estirpe que visitava a cidade quinzenalmente. Logo estávamos imersos na Rua Direita dos anos 1970.
— Se naquele tempo existisse essa tal de Internet, eu não seria um homem feliz — confessou ele. — Hoje os rapazes tiram pedidos por e-mail, pelo celular... Que sem graça! Eu viajava quilômetros só para ver o colégio sair e aquela rua se transformar em um autêntico desfile de misses.
Balancei a cabeça, concordando. Aquilo era, sem dúvida, o auge da vida social.
— Pena que você não esticou a visita até domingo — arrisquei. — A saída da seção das seis do Cine XV era um espetáculo ainda mais sublime. As moças desfilando toda a produção, enquanto nós, a rapaziada, tentávamos, num esforço hercúleo, criar coragem para uma declaração ali mesmo, entre a calçada e o sonho.
Mas, como todo copo de cerveja tem seu fim, a nostalgia esbarrou no concreto do presente. Faz quase dois anos que a distância física se impôs, entre pandemias e os tropeços da saúde. O vendedor, porém, trouxe o choque da realidade:
— A cidade mudou, meu amigo. Está diferente... difícil. Hoje não vendo dez por cento do que vendia lá atrás. Nem entro mais no roteiro, toco direto para Pádua ou Itaperuna. Para o resto, o virtual resolve a miséria dos pedidos. Aqueles tempos de bater meta, de sustentar a família com o brilho no olho? Ficaram no passado.
Senti um aperto. Eu, que leio cada notícia da cidade como quem examina uma carta antiga, preferi o desvio para as boas memórias.
— Esqueça o lucro de hoje, vamos aos nomes. Onde estão os grandes comerciantes daquela época?
E ele, como quem abre um álbum de fotografias, começou a declamar: Altair Mattos Tostes, Jofre Geraldo Salim, o inesquecível Neffá Murched El Kouri. Ele descrevia Altair com o entusiasmo de quem falava de um mestre da pesca; sobre Jofre, o vendedor não economizava admiração pela erudição e gentileza do cidadão.
— E o Neffá? — perguntei, sentindo a voz tremer um pouco.
— Ah, o "libanês"... esse era espetacular. Um sujeito incrível! Eu sempre marcava minhas visitas para o final da tarde, hora sagrada. Ele fechava a loja e me levava para o bar de um patrício dele. Comíamos quibe, tomávamos cerveja gelada, uma, duas, três... E tinha sempre o gerente dele, um sujeito barbudo, que se parecia muito com você, aliás.
Senti o ar parar nos meus pulmões. O vendedor me olhava, alheio, mergulhado na cena do passado. Eu o olhei bem, vi o brilho da amizade em seus olhos, e a conexão atravessou o tempo com a força de um raio.
— Esse "barbudo" sou eu — disse eu, quase num sussurro de incredulidade.
O tempo congelou no Armazém. A surpresa dele não foi apenas um espanto, foi uma redescoberta de vida. O abraço que veio em seguida não precisou de palavras; tinha cheiro de poeira de estrada, de quibe e de saudade. Lenílson precisou fechar as portas, pois a noite já avançava, mas a história mal tinha começado.
— Sexta que vem? — perguntou ele, limpando um canto dos olhos.
— Sexta que vem — confirmei.
E a promessa foi o nosso melhor brinde. O mundo lá fora segue com suas fibras óticas e seus pedidos digitais, mas nós, em nossa pequena mesa, reconstruímos Miracema, tijolo a tijolo, memória a memória, enquanto a sexta-feira aguarda pelo nosso próximo reencontro.
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