Tres amigos, três irmãos
O calor de Campos, insistente e úmido, parecia recuar para dar espaço a um frescor inesperado na sala. Na poltrona, o tempo havia se dobrado. Ali, entre a tela da TV onde Erasmo e Roberto, dois gigantes feitos de carne e canções, se abraçavam em um reencontro de meio século, e o meu próprio peito, abriu-se um vértice. O palco do Theatro Municipal virou um espelho. As lágrimas que eu vi brotarem dos olhos de Roberto, marejando-lhe as retinas cansadas, não eram apenas as minhas; eram um convite para atravessar o portal da memória.
A imagem dissolveu-se. O ar do Municipal foi substituído pelo vento que soprava na Praça Ary Parreiras. O som dos aplausos refinados transformou-se no barulho das chuteiras arrastando-se no saibro das peladas, na gritaria da torcida nos jogos do time do Bitico, na expectativa silenciosa antes do apito inicial na quadra do Rink.
Lá estavam eles. Júlio Barros, com seu jeito sereno, e Gutinho — ou José Augusto, quando a etiqueta da Dona Antônia imperava — aquele que era a extensão da minha própria juventude.
Recordo-me com clareza daquela cena na porta da casa dos Botelho. O sol da tarde batia forte nas telhas coloniais. Eu, imerso na rebeldia afetuosa dos vinte anos, ignorando solenemente a hierarquia doméstica:
— Dona Antônia, o Thiara está por aí?
A voz da mãe, seca e firme como uma sentença, cortava minha pretensão:
— Aqui não tem Thiara nem Gutinho. Aqui tem José Augusto.
Lembro-me das risadas das meninas, Guta, Terezinha e Luzia, cúmplices silenciosas da minha teimosia, tentando me avisar que, naquela casa, o batismo valia mais do que o costume das ruas. Era uma época em que o “você” de casa era a extensão do “nós” da praça. Entrávamos sem bater, pedíamos a bênção, proseávamos com Dona Yolanda e seu Zé Barros como se as casas deles fossem as nossas próprias peles, sem divisas, sem trancas.
Houve também o senhor Botelho, figura fundamental nesse mosaico. Ele não me deu apenas uma amizade; deu-me a primeira lente pela qual vi o mundo. Foi através de seu incentivo em A Voz do Povo que descobri o peso das palavras, o vício irresistível da crônica, a profissão que, talvez, tenha salvado o rapaz expansivo que eu era de uma vida comum demais. Ele viu o colunista antes que eu sequer desconfiasse da minha vocação.
E 1968, aquele ano de intensidades, quando a farda do Tiro de Guerra 217 se moldou ao corpo e ao espírito sob os comandos austeros do sargento Couto. Nós três, éramos um corpo só quando a bola rolava no Gemine V, um trio que corria pela cancha não para vencer, mas para perpetuar aquele laço que a correria dos anos insistiria em afrouxar.
Erasmo e Roberto choraram a música. Eu choro agora o silêncio e o caminho. Os pés já não correm nas peladas, os cabelos brancos são o tributo cobrado por mais de sessenta anos de uma estrada que, ainda que geograficamente dividida pelas artimanhas da vida, permanece inalterada em sua rota afetiva.
Júlio e Gutinho. Os nomes hoje ressoam em mim como versos que não cheguei a escrever, como notas de uma sinfonia que apenas os três sabemos a letra. Olho para o lado da minha poltrona em Campos, na ausência física deles, mas com a presença imensa na alma. A canção no rádio agora soa apenas como uma trilha sonora tardia para uma história que não precisa de rimas para ser perfeita.
Sim, Milton tinha razão, e o Roberto, e o Erasmo. Amigo é esse objeto guardado a sete chaves, onde o tempo não ousa tocar. Guardado aqui, no lado esquerdo do peito, à prova de qualquer calor.

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