As cidades que me habitam

 Hoje, quando fecho os olhos para dormir, não volto ao mapa físico que está pregado na parede do corredor. Eu visito os mapas da memória. Existe um atlas particular dentro de mim, uma geografia afetiva onde o Rio Tâmisa, em Londres, corre paralelo às águas de um canal de Amsterdã, e o ar seco de Ancara sopra contra a brisa do Tejo em Lisboa.

Viajar é, em última análise, um ato de desaceleração. Você abre as janelas de quem você é e permite que estranhos — monumentos, línguas estrangeiras, especiarias e desconhecidos — entrem sem bater.

Muitas vezes me perguntam: "Qual a melhor?". Eu não tenho uma resposta. A "melhor" é sempre aquela onde eu estava exatamente no momento em que a vida pediu uma resposta. Em Viena, aprendi a paciência de quem espera o espetáculo começar. Em Marrakech, aprendi que o caos não é desordem, é vida acontecendo em volume máximo. Em Brasília, aprendi que até a arquitetura mais fria do concreto se aquece quando o horizonte se tinge de cinza ao entardecer.

Cada cidade foi uma estação do meu próprio desenvolvimento. Eu me sinto um pouco como as muralhas de Berlim: construí barreiras por muito tempo, e quando precisei, derrubei tudo para me reinventar. Carrego em mim o silêncio respeitoso que encontrei no Vaticano, mas também a alegria intempestiva que colhi nas ruas de Buenos Aires. Sou feito de contrastes: o formalismo londrino temperado com a informalidade latino-americana que nunca me deixou.

A estranha beleza de colecionar capitais é notar o que não muda em nós, não importa onde o relógio marque a hora. Eu levei meu café, minhas dúvidas profissionais e meus amores por vinte continentes, e em cada um deles, o sol nasceu e se pôs do mesmo jeito — mas, de alguma forma, sempre diferente. O sol que vi cair sobre o deserto do Saara não tem a mesma cor daquele que morre atrás dos telhados cinzentos de Praga. O que muda não é o sol. Sou eu.

Eu não sou mais o homem que pisou em Madri em 2005, com o brilho no olhar de quem via um estádio pela primeira vez. Aquele era um explorador em busca de carimbos no passaporte. Hoje, sou um curador de momentos. Procuro a essência, o ruído das ruas que nos humaniza, a calçada onde tropeçamos e a conversa que mudou nossa perspectiva sobre um conflito mundial ou uma simples escolha pessoal.

As estradas me habitam porque elas são o rastro das escolhas que fiz e das que ainda farei. Sinto um conforto estranho em saber que, em cada esquina do mundo, existe um pedaço do meu passado me esperando, como um eco que ficou registrado na pedra das praças ou no vento das esquinas.

Não sei para onde a próxima escala aponta. Sei apenas que o passaporte é um documento de identidade temporário. A verdadeira identidade — essa, construída tijolo a tijolo, museu a museu, entardecer a entardecer — é aquela que guardo sob as costelas. 

O mundo é um lugar imenso, assustador e maravilhoso. Mas, talvez, o território mais complexo de explorar ainda seja este que caminho todos os dias, este mundo invisível que construí dentro de mim a cada viagem.

E, com sorte, amanhã eu adiciono mais um parágrafo. Afinal, a jornada só acaba quando a gente para de procurar. E eu? Eu mal comecei a percorrer a minha própria imensidão.


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