Um chopp prá...
A noite em Ribeirão Preto não tinha apenas caído; ela tinha se esticado, ganha contornos de um infinito particular, selado pelo malte e pela audácia. Cinco caipiras, unidos não pelo sangue, mas pela comunhão inabalável daquela mesa na choperia Pinguim, haviam acabado de atravessar o umbral do ordinário.
O garçom, uma estátua de paciência vestida de branco, observara o último filete de espuma descer pelo sistema de refrigeração e anunciar o fim. Eles haviam acabado com o barril. Aquilo, para aqueles homens que carregavam no peito a crônica da vida interiorana e o ruído da profissão, não foi um consumo — foi um sacramento.
Quando o sol já parecia uma promessa longínqua para o dia seguinte, o grupo ganhou a calçada. O ar noturno, abafado e morno do interior, abraçou a boemia do quinteto. Eles começaram a caminhar, ainda tateando as últimas sílabas de uma melodia que não precisava de tom, apenas de alma. Eram cinco vozes, cinco vidas e uma vontade desmedida de desafiar o silêncio da madrugada.
A rua, que antes era apenas uma via asfaltada de passagem, transformou-se em um palco sagrado.
Enquanto a embriaguez ditava o passo incerto, o tempo sofreu uma distorção. A eternidade não é um relógio que não anda; a eternidade é aquela fração de segundo em que você sente que, se o mundo acabasse ali, o saldo seria positivo. O eco de suas gargalhadas subia pelos postes e se perdia no firmamento, desenhando, quem sabe, novas constelações sobre o gramado do Santa Cruz.
Pessoas começaram a sair das esquinas, atraídas por aquele magnetismo incompreensível. Era o cortejo da vida acontecendo à revelia dos horários. Atrás deles, o cortejo crescia como uma orquestra de figurantes que também queriam um lugar naquela narrativa. Não importava que o jogo de domingo estivesse na agenda da vida; ali, no escuro acolhedor de Ribeirão, eles estavam jogando uma final que não precisava de súmula.
Cada passo dado na calçada parecia riscar o nome deles no tempo. Onde estariam eles em vinte, trinta anos? Seriam lembrados pelo sucesso profissional, pela gravata que usaram em outras tantas coberturas ou pelas frases lapidadas nos bastidores? Nada daquilo parecia tão real quanto aquele momento.
O barril não era apenas chope; era o combustível da memória. E a eternidade, ironicamente, não estava em monumentos ou contratos. Ela residia exatamente ali: naquele balanço de ombros de um homem feliz, no arroubo de uma canção bolero-caipira, e na certeza absoluta de que, ao chegarem à porta do hotel, eles não seriam os mesmos.
A transmissão no dia seguinte seria um borrão de nomes, chutes e lances perdidos. Mas aquela caminhada? Aquela caminhada seria um monumento inalterável. Eles não eram apenas jornalistas, radialistas ou viajantes de passagem. Eram poetas do acaso, celebridades do improviso, os cinco soberanos de uma Ribeirão que, por aquela única noite, aceitou a vassalagem de quem só queria celebrar a própria existência.
O destino tinha escalado o time certo para aquele sábado, e a vida, generosa como nunca, concedeu-lhes os noventa minutos extras que ninguém esperava. Quando, finalmente, o sono chegou para encenar o apito final, eles adormeceram não como caipiras da roça, mas como gigantes de uma lenda que só o barulho das próprias vozes — e o esvaziamento de um barril — foram capazes de escrever.

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