O banco... a saudade e o jardim

 O sol, quando desce a ladeira em Miracema, não apenas se põe; ele desenha. É uma luz dourada, espessa como mel, que banha o Jardim, ignora o ruído dos motores e se detém, reverente, na fachada da Matriz de Santo Antônio, lá no alto. A igreja vigia, altaneira e calma, o pulsar da cidade.

No coração desse quadro, há um banco. Não é um móvel qualquer. É feito de madeira castigada pelo tempo, braços de ferro fundido já descascados, que sustenta, há décadas, o peso da alma de quem ali se senta. E, protegendo-o com seu dossel verde e sussurrante, uma árvore frondosa — um ser antigo, que conhece todos os segredos que o vento, ao descer do Jardim, insiste em contar.

Dizem, à boca pequena, que aquele banco não é um objeto estático. Ele tem memória.

Quando o "Saudosista" — o menino de ontem que agora olha para o horizonte lá de Campos — fecha os olhos, algo acontece. A realidade dobra. A brisa que sopra em Campos traz, inexplicavelmente, o aroma das palmeiras de Miracema e o perfume inconfundível da pipoca do Tarcísio. E, nesse instante, o tempo se torna uma borracha gasta.

No banco, agora, não há apenas uma sombra fresca. Há o eco de uma vida. O banco vibra levemente sob o assento de uma presença invisível. Ali, a criança ainda joga bola, esperando, com o coração acelerado, o assobio paterno que desce da escadaria como um decreto inevitável. Ali, casais jovens, com o sangue fervendo em promessas "calientes", sussurram o começo de destinos que mais tarde se tornariam histórias de altar. Ali, os joelhos se dobram em terços sussurrados, enquanto, lá no topo da ladeira, a silhueta da Matriz de Santo Antônio parece inclinar-se, apenas um milímetro, para ouvir a confissão de cada alma cansada.

A árvore, guardiã desse tempo suspenso, . Elas são as notas de rodapé de todas as histórias que já foram ali contadas.

E Santo Antônio? Santo Antônio lá de cima, com sua visão privilegiada da terra, não julga o movimento de saudade que atravessa as léguas de estrada entre Miracema e Campos. Ele entende. Pois, para quem mora no peito, a distância não existe. A bênção dele, tangível na luz do fim de tarde que ele retém por mais tempo nas suas paredes, é um fio invisível.

O banco é, em última análise, um altar. Não de pedra ou de ritos, mas de esperança. Ele é o ponto onde o ontem se encontra com o hoje sem brigar.

— Eu te espero — o banco sussurra para o Saudosista, num balbucio de fibras e ferro. — Deixe o mundo lá fora se apressar. Eu continuo aqui, sob a tutela da Matriz, segurando o seu lugar. Venha, em pensamento ou em carne, que o vento está bom e a sombra, essa eu guardei só para você.

E, na quietude de Miracema, enquanto a lua começa a se debruçar sobre a praça, o banco cumpre sua missão: a de ser, talvez, o lugar mais presente que existe no mundo, justamente porque é feito da substância sólida da saudade. Haja coração!

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