O fantasma do TG 217
Rua Direita, em seus dias de sol a pino, não via apenas pessoas passando. Via o pulsar de um tempo em que o tempo, por mais paradoxal que pareça, tinha a velocidade certa. Era ali, sobre o calçamento de paralelepípedos que ecoava o bater rítmico das botas, que Miracema se descobria. Não era apenas uma rua; era a artéria principal de uma geração que ainda entendia que disciplina não é silêncio forçado, mas o cuidado de mover-se no mesmo compasso que o próximo.
Para o grupo do Tiro de Guerra 217, cada desfile naquela via não era uma encenação marcial, mas um pacto.
O Sargento Couto, figura de coluna vertebral indomável e olhar que desnudava qualquer vacilo, sabia que aquele batida de botas deveria ser precisa, sim. Mas ele também via o que ninguém registrava nos manuais: o brilho no canto do olho do jovem Adilton, o suor na testa do rapaz que, momentos antes, estivera no campo e que, minutos depois, teria de estar na escola ou sob o peso do sustento do lar. Marchar na Rua Direita era, em última análise, carregar o peso de um nome e a leveza de um propósito.
E logo ali, na confluência do dever, o Bar do Seu Vicente surgia como o oásis necessário. Se o quartel era a fundação do caráter, o balcão do vovô Vicente era a arquitetura da camaradagem. Quantas madrugadas geladas de instrução foram desmontadas pelo calor humano que emanava daquele ambiente? Vovó Maria, com sua intuição de quem via a alma faminta de um rapaz antes mesmo de ele pedir, tinha a fórmula perfeita: a caneca fumegante de “Tim-Tão” e aquele “disco voador” de amendoim, cuja textura guardava o gosto do afeto mais puro.
Aquele era o combustível que mantinha a turma de 1968 em pé. Entre um sargento austero e um brinde escondido na penumbra do bar, formava-se um pacto invisível. Quando, sob a égide do comando do Sargento Couto, os 53 reservistas caminhavam, a população local não via apenas um destacamento; via um espelho. Ali estavam os seus filhos, os seus amigos, o futuro imediato. Eles marchavam porque, dentro de suas fardas verde-oliva, compreendiam que a disciplina os unia naqueles poucos minutos de coreografia, mas era a amizade forjada ali que os tornaria inseparáveis pelos próximos sessenta anos.
A memória, na Rua Direita, não envelhece — ela sedimenta. Às vezes, quando o silêncio desce sobre Miracema, quem passou por lá ainda jura ouvir, na brisa que desce da Praça Ary Parreiras, o eco distante de uma ordem seguida de um brado:
— Número 2?
— Picanço!
Não era um número de identificação, era o código de uma irmandade. E, décadas depois, cada ruga na pele daqueles homens é um documento, cada riso compartilhado é uma insígnia de uma campanha vencida não pela arma, mas pela persistência do laço. Disciplina, amizade e memória. A tríade que pavimentou, com mais força do que qualquer concreto, o orgulho de pertencer a uma geração que soube, antes de tudo, o que era honrar um par de botas e o ombro do amigo ao lado.
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