O Bar do Vovô
O Bar da Praça
E, como hoje é dia de bar, de drinks, cervejas e petiscos, minha memória me leva direto aos finais de semana naquele famoso bar da Praça Ary Parreiras.
A localização era privilegiada. Bem em frente ficava o prédio da Prefeitura, que também abrigava o Fórum e a Câmara de Vereadores. Ao lado, a sede do Tiro de Guerra 217. Um pouco acima, a Igreja Matriz de Santo Antônio, guardando a praça como quem observa tudo em silêncio.
Convenhamos: era um endereço de respeito.
Talvez por isso mesmo este amigo de vocês pouco tenha aproveitado as famosas festas de Santo Antônio. Eram dias de praça cheia, música, encontros e alegria, mas também os dias em que o bar mais faturava. E, numa família que trabalhava unida, cada braço fazia diferença. Enquanto muitos festejavam, nós trabalhávamos — e, curiosamente, também éramos felizes assim.
Naquele tempo ainda não existia essa moda de espalhar mesas e cadeiras pelas calçadas. Nosso salão dava conta do recado. Era amplo, acolhedor, com pelo menos uma dúzia de mesas, quase sempre ocupadas nos fins de semana e, muitas vezes, também nas tardes comuns da semana.
Ali tinha de tudo um pouco: café fresco, bolos feitos por mamãe e vovó, salgados saindo na hora e, principalmente, conversa. Muita conversa.
Políticos, advogados, juízes de direito, comerciantes e até os antigos “coronéis” das fazendas passavam por ali. Alguns já frequentavam o lugar desde os tempos das sinucas, quando o bar tinha outro ritmo, mas a mesma alma.
E havia também o balcão.
Na verdade, um balcão enorme, quase exagerado, daqueles feitos para apoiar copos, cotovelos e histórias. Ali se encostavam trabalhadores de toda espécie para aquilo que hoje chamam de happy hour. Tinha pinga com mel, pinga com groselha e o famoso “melinho”, nome que nasceu ali mesmo, entre uma risada e outra.
Passavam por lá figuras inesquecíveis: Ló, João Leitão, Físico, Washington, Orestes Casadinho, Jorge Pela-Égua e tantos outros mecânicos e amigos que fizeram do Bar do Vicente um ponto de encontro obrigatório de Miracema.
Foram anos de casa cheia, movimento constante e histórias que dariam outro livro.
Mas confesso uma coisa: eu não gostava daquela vida tanto quanto parecia. Enquanto a cidade se divertia, eu trabalhava. Enquanto as festas aconteciam ali ao lado, eu servia mesas, limpava balcão, ajudava a família. E, aos poucos, aquilo foi despertando em mim uma vontade enorme de voar, de conhecer outros lugares, de buscar novos ares.
Até que um dia meu pai, Zebinho Dutra, decidiu que era hora de parar. Olhou para mim e perguntou, de forma direta:
— Vai continuar ou vamos fechar o bar?
Nem precisei pensar muito.
E assim chegou ao fim o Bar do Vicente.
Hoje restou a saudade.
Outro dia passei por lá. Vi que revitalizaram o espaço, deram nova vida ao velho Bar da Praça. Gostei do que vi. Ficou bonito, convidativo… moderno, sem perder totalmente a essência.
Só não tive coragem de me sentar em uma das mesas colocadas na calçada.
A emoção falou mais alto.
Fiquei com medo de o coração bater forte demais.
Mas um dia… eu ainda sento ali.
— para Miracema em Mim
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