Onde canta o sabiá?
Ouvindo alguns sucessos da minha infância e juventude — a bossa nova sempre esteve entre minhas paixões — de repente me vi outra vez de calça curta, sentado na calçada da Prefeitura, com um talo de mamão, uma caneca de alumínio com água e muito sabão, soprando pelo canudo improvisado e soltando bolas, bolinhas e bolões... exatamente como hoje as crianças, da geração de Luna e Felipe, meus netos, fazem com brinquedos comprados em lojas especializadas.
E por que me lembrei dessa peraltice ouvindo música? Fácil explicar.
Na canção interpretada por Dóris Monteiro, um verso diz: “Sentado na calçada com canudo e canequinha...” Bastou ouvir isso para viajar, como tanto gosto, de volta ao meu passado na minha querida Miracema.
Certo dia, postando meus contos e crônicas no Facebook�, alguém contestou um texto em que eu parodiava Gonçalves Dias:
"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá..."
O amigo, cheio de convicção, disparou: “Sabiá não canta em palmeiras.”
Tudo bem. Mas afinal... onde canta o sabiá?
Tenho certeza de que talvez não fosse exatamente nas palmeiras do nosso jardim de Miracema. Mas, sinceramente, isso importa?
Nós cantávamos, em prosa e verso, as palmeiras, o jardim, a cidade e a beleza daquele tempo.
E, no fundo, é isso que vale.
Afinal, onde canta o sabiá? Pouco importa onde a ave escolhe soltar seu canto. O que importa é por onde passei, com quem dividi minhas brincadeiras, e as lembranças que ainda me visitam.
Quem me lê agora, por acaso já brincou com uma canequinha de alumínio e um canudo feito de talo de mamão?
Quem já desceu o velho morrinho da Igreja Matriz, escorregando numa casca de palmeira, esfregando o bumbum na grama e saindo de lá com a alma lavada de felicidade?
Meus netos, Luna e Felipe, nem seus pais viveram isso. Mas tenho certeza de que essa nova geração também conhece sua dose de aventura — seja numa prancha, numa praia de Natal, deslizando no famoso skibunda, sentindo talvez a mesma adrenalina que eu e minha turma sentíamos no morro da Matriz.
E o sabiá?
No morro onde hoje está o Calvário, subíamos com alçapões e gaiolas, tentando capturar um. Confesso: nunca consegui colocar um sabiá numa gaiola. Não por falta de vontade, mas por absoluta falta de talento para a caçada.
Ainda bem.
Porque, em vez disso, pude ouvi-lo.
E me emocionar com o canto da ave eternizada por Gonçalves Dias.
Se hoje o sabiá já não canta nas palmeiras do jardim de Miracema — ou se nunca cantou — isso pouco muda. O que continua vivo são as memórias de quem viveu o auge daquela cidade.
Não tínhamos internet, televisão colorida ou joguinhos no celular. Mas talvez justamente por isso tivéssemos mais tempo para ouvir o sabiá.
E para viver.
As águas do Ribeirão Santo Antônio eram limpas, convidativas, quase sagradas para nós. Descíamos da Usina Santa Rosa até o Pontilhão do Rosa em boias feitas de câmara de ar, grandes ou médias, rindo da vida, sem pressa de chegar.
E ali, entre as árvores e as matas que margeavam o ribeirão, eu ouvi o sabiá cantar.
Talvez não nas palmeiras do jardim.
Mas dentro de mim... ele canta até hoje.
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