Quitutes da terrinha

 Ouvindo um comentário de que teremos um festival de quitutes aqui na cidade, meu pensamento voa direto para os anos 1960, na minha Miracema, e pousa nas vitrines de doces e salgados, nas cozinhas dos bares — hoje guardadas apenas na memória de quem viveu aqueles anos dourados na Princesinha do Norte.


Era uma abundância em todos os sentidos. Bares com estilo, cozinhas de alto nível e até os mais simples botequins serviam quitutes e tira-gostos de qualidade comprovada. E é por essas lembranças que caminho agora, trazendo à mesa alguns daqueles sabores que fizeram fama entre glutões, boêmios e apaixonados pela boa mesa.

Tintão com Disco Voador — e o que seria isso? Qualquer atirador do TG 217, lá dos anos 60, responde sem pestanejar: chocolate com broa de amendoim do Bar do Seu Vicente, ali ao lado do Tiro de Guerra.

O tal “disco voador”? Nada mais que a broa de amendoim. Saída do forno — muitas vezes da Padaria Primor, do Garibaldi Parreira — era dura como pedra. Mas bastava um dia… e pronto: macia como pele de moça. Era o mata-fome oficial dos soldados nas manhãs de instrução.

Bife de porco do Farid — aqui já entra a turma mais antiga, que pode contar melhor esse ritual. O fim de noite na cantina do Farid era parada obrigatória. Ali se reunia a melhor rapaziada de Miracema, entre risadas, histórias das farras e aquele reforço antes do sono dos justos.

O segredo do tempero? Vai saber… tinha quem jurasse que era o suor da camiseta branca do dono ou o calor dos gatos nas prateleiras. Verdade ou não, o fato é que nunca ouvi uma crítica sequer.

Chapa de boi do Angeludo — fosse no pão ou no prato, aquilo era coisa de outro mundo. O tempero e o jeito do “Giludo” eram únicos. Conheci essa maravilha no Bar Leader, do Zé Careca, e não fui o único: praticamente todo mundo que passava por ali virava fã. Eu, particularmente, não resistia ao pão — a carne na chapa ganhava um sabor impossível de explicar.

O quibe do Abdo — unanimidade absoluta. O quibe e o homus do Seu Abdo traziam o Líbano para dentro de Miracema, com um cuidado que só quem ama o que faz consegue colocar no prato. Figura doce e carismática, reunia a juventude no pós-sessão das seis do Cine XV. Muitas vezes, virava ponto de encontro de famílias na tradicional Sorveteria Miracema.

Os doces do Zé Careca — Dona Delmira, esposa do José Tostes Padilha, tinha mãos abençoadas. Seus doces até hoje não encontraram substitutos à altura na cidade. Era uma mistura de arte, sabor e carinho nas vitrines do Zé Careca, com freguesia fiel e presença garantida em muitas noites e muitas salas da nossa Miracema.

O pastel do Seu Vicente — mais uma joia do bar da família. Feitos por Vó Maria ou por minha mãe, Lili, eram daqueles que não se comia apenas um. Massa fina, aberta no muque, frita em óleo puro, sem truques — dourada, crocante, perfeita.

Virou tradição entre os funcionários da prefeitura, que faziam fila por volta das oito da manhã, esperando sair a primeira bandeja do legítimo pastel de carne com batata.

Agora me diz… não dá vontade de sentar numa mesa de madeira, pedir um “disco voador” e deixar a vida passar devagar? 🍷

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