As badaladas da Ave Maria

                 


As Badaladas da Saudade

Voltei com outras preciosidades escondidas.

São lembranças que me fazem correr ao computador e escrever — antes que escapem do pensamento — sobre o cair da tarde… ou o cair da noite, como prefere a linguagem poética.

Principalmente aquela eternizada por Augusto Calheiros em sua Ave Maria, que fez suspirar um punhado de senhorinhas sentadas à beira da calçada, sonhando com a passagem de um possível par romântico nos bailes da vida.

Pode ser também a angústia que, às vezes, me visita nesses momentos.

Lembro dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:

“Quando a lua desce aqui no Rio,

eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio.

Quando a lua nasce cor de prata,

eu relembro Miracema em serenata.”

E há também a lembrança de minha mãe.

Nesta segunda-feira, 29 de julho, ela completaria cem anos.

Não será comemorado em vida — mas será lembrado.

Lembro das velas acesas, à espera das badaladas…

que, na verdade, eram seis — as mesmas seis da manhã, repetidas à noite —

e daquele leve temor que o cair da tarde sempre trazia consigo.

Ou da noite.

Como queiram.

Sei que a música — a Ave Maria — tocada diariamente na Rádio Mundial marcava a chegada das dezoito horas.

Era nesse momento que eu e meu avô Vicente nos aproximávamos do rádio.

E eu, travesso, irritava o velho — amado e querido vovô — cantando sempre o mesmo trecho da canção.

Justamente aquele que ele mais gostava…

e que minha avó Maria também cantava:

“No alto do campanário,

uma luz simboliza o passado

de um amor que já morreu,

deixando um coração amargurado.”

Anos depois, já velhinho, ele me confessou o motivo da irritação.

Disse que a música o incomodava porque sua esposa — minha avó — parecia, ao cantá-la, lembrar de um amor de juventude.

Nunca houve confirmação.

Ela dizia que era invenção dele.

Ele jurava que não.

E eu…

acreditei nos dois.

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