A Política e o Bar do Meu Avô:
O Dia em que a Democracia Perdeu a Elegância
A gente vai envelhecendo e o tempo nos faz entender muitas coisas. As descobertas são surpreendentes, como esta amarga lembrança de um dia de eleição na minha Miracema — no meu espaço favorito, a Praça Ary Parreiras, e no meu lugar dos sonhos: a minha casa e o bar do meu avô, Vicente Dutra.
O tempo passa e, aos poucos, descobrimos nossos traumas e os motivos para certos bloqueios em nossa memória. Já dizia o saudoso Tito Madi que há tempo para tudo: para amar, crescer e brincar. Mas há também o tempo de compreender o que nos afastou de certos caminhos.
Com a proximidade das eleições e essa onda de saudade que me invade — talvez pelos seis meses longe da "terrinha" —, me vem à mente um episódio decisivo. Foi algo que me marcou profundamente e me influenciou a manter distância dos movimentos políticos na juventude, na fase adulta e, agora, na chamada terceira idade.
Sempre estive cercado pela política. Nos anos 60, tive o privilégio de ser o "garoto de recados" da Câmara de Vereadores, naquele tempo formada pela nata da sociedade: homens dignos de serem chamados de representantes do povo. Nomes como Jofre Salim, Antônio Laureano, Armando Azevedo, Nilo Ronzê, Nilo Lomba, Jamil Cardoso, José Carvalho e Salim Bou-Issa, entre tantos outros, eram figuras ilustres que quase me inspiraram a seguir o mesmo caminho.
O grande líder Altivo Mendes Linhares, o Capitão, era frequentador assíduo do Bar do Vicente Dutra. Eram tão amigos que se chamavam de parentes. "Ele leva jeito, Vicente", dizia o prefeito ao me ver trabalhando para os vereadores ou para os juízes do fórum, que também ficava ali na Praça Ary Parreiras.
Porém, há sempre um "porém". Uma briga generalizada, iniciada justamente nas mesas do nosso bar por pessoas sem qualquer visão de liberdade ou democracia, transbordou para as ruas e se tornou uma verdadeira batalha campal. Felizmente, não houve vítimas fatais.
A "guerra" começou por causa de uma distribuição de cédulas eleitorais — naquela época, o voto era no papel. Um cabo eleitoral não aceitou a troca de suas cédulas pelas do adversário. Ali nasceu o meu descontentamento com a política e, principalmente, com os "puxa-sacos" de políticos.
Hoje, pelas redes sociais, revejo aquela briga generalizada. A falta de respeito com a opinião alheia continua a mesma, e me sinto tão impotente para contê-la quanto naquele dia dos anos 60. Por isso, repito: a política não é minha praia. Não me cabe nas manifestações de rua e, muito menos, nos tribunais digitais da modernidade.
Não sei se a política perdeu um grande figurante ou se eu ganhei ao não me tornar um desses personagens criticados e odiados — amados apenas por uma meia dúzia de correligionários interessados em usufruir do poder alheio. Eu "estou fora". Sinto-me bem assim. A política deveria ser para quem sabe fazê-la com elegância e sabedoria, mas, infelizmente, isso parece ser coisa de uma minoria cada vez menor. Certo?

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