Carta aberta para o Erasmo Tostes
Meu caro Erasmo,
Esta carta aberta não tem o objetivo de responder à sua última crônica, no jornal Liberdade de Expressão, mas rebater incisivamente a ideia de alguns amigos que me chamaram de velho ou até de museu ambulante por ter reconhecido cem por cento dos Tipos Inesquecíveis que você colocou em destaque. Disseram que seria um teste para quem tivesse mais de cinquenta anos — que é o meu caso —, porém com pouco menos dos sessenta, que só chegarão daqui a dois anos e pouco.
Você, meu caro Erasmo, mexeu com a minha infância, falando do Amaro Leitão, pai de
grandes amigos meus; do velho Antenor Rego, com quem proseei bastante nas imediações do parquinho; falou do Briguelo, que muitos amigos sequer imaginam quem seja, mas eu, velho de guerra, servi alguns cafezinhos e broas para o grande eletricista — grande em todos os sentidos. Falando em Briguelo, meu caro amigo, lembro-me do Bem da Sanfona, que também fez parte da minha infância e me transmitiu algo de bom da música de improviso.Um trio do chamado Triângulo da Saudade — aliás, pode até ser um quinteto — me traz recordações e me faz lembrar que um dia eu quis ser alfaiate, por causa do Pepito; ser também sapateiro, por causa do Deoclides; gostaria muito de ser calmo como o seu Cícero e nunca nervoso como o Caboclo, nem botafoguense como o Tetinho.
Naquele pedaço, meu velho companheiro Erasmo, tenho na memória as orientações seguras do seu Scilio, sempre ponderando e nos mostrando um caminho melhor, e do Neném Braga — santa paciência —, um fazendeiro que, nos tempos de hoje, não se vê mais por aí.
Não me esqueci do Roque e do Miguel, ambos Magaldi, ainda vivos na minha mente e na imaginação. O Roque, que me dava botões de sua capa, escondido dos outros garotos, me protegia por gostar de meu avô Vicente, também citado por você. E o Miguel… ah, Miguel! Sua inteligência misturada à minha vontade de aprender me deixou cada vez mais apaixonado pelo rádio. Hoje eu não levo mais meus rádios e toca-fitas ao conserto: o Miguel é saudade e os aparelhos já não são como antigamente, fortes e rígidos.
Seu Neguinho, da gráfica… Caramba, quantas broncas dele e do tio Ary por empastelar seus tipos. João Campanário só gostava de ser servido por mim e tinha sempre uma moedinha sobrando no bolso pequeno de suas calças.
Grande Erasmo, que saudade de todos esses seus amigos, que também foram dos meus avós e dos meus pais. Que saudade do Pernoca, seu irmão e meu amigo, que tentava me pegar com suas pernas longas — no futebol, é claro —, mas minha astúcia era do tamanho do famoso Homem-Aranha, ídolo da garotada de hoje.
Três nomes e três histórias diferentes, mas que fazem parte do nosso folclore: Cabo Atleta, que não deixava a minha turma chegar perto do pé de jambo; Maria Batuquinha, que me fazia gostar cada dia mais do caxambu; e Zé Faca, nosso ídolo maior do carnaval. Aí estão os três nomes. Cabe a você, que está lendo agora esta carta aberta ao Erasmo, imaginar as três histórias com esses personagens folclóricos e famosos de nossa santa terrinha.
Eu até gostaria de falar sobre dona Quita, doutor Hermes, doutor Sílvio Freire, dona Clarinda Damasceno, personagens de meus tempos de estudante. Falar também dos políticos que, naquele tempo, tinham a honestidade e o amor por Miracema como suas causas maiores. Que saudade de Ventura Lopes, Altivo Linhares, Jamil Cardoso e José de Carvalho. Os dois últimos fizeram parte da minha história: pais de amigos meus e frequentadores assíduos do Bar do Vicente.
Gostaria de prosear muito mais, falar do Manoel Catinga, da Verônica e da Rundunga — claro que do Paraoquena —, mas deixo o parágrafo final para me lembrar do doutor Ururaí Macedo, grande flautista que me proporcionou momentos incríveis, como o que relato agora, meu caro Erasmo, nestas últimas mal traçadas linhas.
Fizemos duetos maravilhosos: eu no piston, lá no meu quintal, e o doutor Ururaí na flauta, lá na sua varanda. Não combinávamos nada, e a música chegava como se fosse mágica. Antes de sua morte, lá na casa da Marilza, sua filha, relembramos esses momentos, mas infelizmente não havia nem a flauta nem o piston. Tenho certeza de que, se essa dupla tocasse em noites de gala na sala de dona Maria do Carmo ou de dona Onidéia, arrancaria aplausos até do velho Chico Damasceno, que abriria seu aparelho para ouvir melhor a melodia executada por dois apaixonados pela música.
Tinha muito mais para contar, meu amigo Erasmo. O espaço é curto e por isso peço desculpas por não falar no Altair, no Adumont, no Saliba, no Neffá, no Zezinho da Prefeitura…
Porém, twm sempre um porém, não encerro sem mandar um grande beijo para dona Nair, uma mulher maravilhosa, que ajudou dona Lili a me colocar no mundo.

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