Ah! O futebol é danado
Domingo cinza.
Não chega a ser tristeza — é mais uma pausa. Um céu nublado, um vento leve, desses que não empurram, mas avisam: “fique por perto, a chuva vem aí”. E eu fiquei. Atafona e Farol de São Tomé que me perdoem, mas gastar dinheiro pra molhar a alma não estava nos planos.
Refugiei-me onde sempre me encontro: minha poltrona, minhas músicas, minhas memórias.
O mundo lá fora em suspenso. O meu, girando devagar.
No Spotify, como quem não quer nada, começa a tocar “Aqui é o País do Futebol”. Wilson Simonal, malandro elegante da nossa música, entra na sala como um velho amigo que não pede licença — e nem precisa. Sorri sozinho. Pronto. Já não estou mais sozinho.
Logo depois vem Vandré. “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”. E aí já não é só música — é tempo. É juventude. É rua, é voz, é coragem. E eu, aqui, me pergunto:
Como pode um domingo no Brasil sem futebol?
Fica um silêncio estranho. Não o silêncio bonito — aquele que acolhe — mas um vazio meio perdido. Sem bola rolando, sem grito, sem chute torto, sem gol chorado. Nem na TV, nem no campinho de terra, nem na memória recente. Nada.
E quando não tem futebol… parece que a vida não tem intervalo.
Porque quando a bola rola, meu amigo, a vida sai de campo por noventa minutos. Fica tudo lá fora. As contas, as dores, os medos… até o inferno dá um tempo.
Mas hoje não.
Hoje é só o eco.
E nesse eco, vou puxando fios. Um leva a outro. Do sambão do Simonal, caio em Roberto Ribeiro. De repente, me encontro com Silvio César. E aí já não tem mais volta.
“Moço Velho”.
Ah… essa não toca — ela conversa.
Fala daquele sujeito que viveu bastante, mas não se perdeu cedo. Que carregou pesos, mas não deixou que eles o quebrassem inteiro. Um velho moço. Ou um moço velho. Depende do espelho… ou da coragem de olhar.
E eu me reconheço ali, meio sem pedir licença.
Porque, no fim das contas, ainda sou isso:
um homem que insiste em acreditar no amor.
Teimosia? Talvez.
Liberdade? Com certeza.
Não nascemos para ser escravos — nem dos outros, nem de nós mesmos. E muito menos para vestir a fantasia de “senhor” de coisa alguma. A vida não aceita donos.
Ela passa.
E passa rápido.
O telefone toca menos. Ou somos nós que ligamos menos? As conversas ficam mais curtas, ou mais raras. Falta tempo… ou sobra silêncio?
Falta coragem, talvez.
Não é, Paulo Diniz?
E lá fora, o domingo amadurece. A chuva ensaia. Quem sabe não caem mesmo uns “Pingos de Amor” por essa planície goitacá, só pra lembrar que ainda há poesia no ar, mesmo quando o céu pesa.
Mas a vida — essa danada — não para pra contemplação.
Da cozinha, vem o chamado.
Marina. Minha Morena Marina.
Chamando para o almoço, como quem puxa de volta alguém que estava longe… mesmo estando tão perto.
Aumento o volume da televisão.
“Molambo” começa.
E aí pronto — já era. Canto junto. Alto, talvez desafinado, mas inteiro. Porque certas músicas não exigem técnica… exigem entrega.
E penso: quanta coisa bonita já foi escrita, cantada, sentida… e mesmo assim, nem tudo cabe dentro da gente.
Nem tudo cabe no meu mundo.
Mas uma coisa cabe, e transborda:
a falta que o futebol faz.
Que volte logo. Não por necessidade — mas por alegria. Por ritual. Por esse pacto coletivo de esquecer a vida por um instante.
Que volte antes que a saudade pese demais.
Que volte para fazer sorrir o molambo, abraçado ao seu Flamengo…
Ainda que, do outro lado, sempre exista alguém vestindo azul, acreditando — com a mesma fé — que a sorte vai virar.
E isso também é bonito.
Porque, no fundo, o jogo nunca foi só o jogo.
É sobre acreditar.
É sobre continuar.
É sobre não deixar o domingo morrer dentro da gente.
Fui.

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