Cantando Marina

 Claro que toda história tem um início.

A minha com a música começa no quintal da casa onde nasci e vivi até os vinte e cinco anos — quando me casei com a personagem daquela canção que eu cantava no balanço feito por meu pai, preso aos alicerces de madeira que sustentavam nossa casa na Praça Ary Parreiras.

Eu ainda era guri, devia ter uns dez anos — no máximo — e já vivia cantando e ouvindo rádio. Hábito herdado do meu avô Vicente, que possuía um potente rádio onde sintonizávamos a Rádio Nacional.

Eu e minha avó Maria passávamos horas ouvindo nossas músicas.

Depois de ajudar minha mãe e minha avó na horta, eu corria para o balanço. E ali, embalado pelo vento da manhã, cantava a plenos pulmões a canção italiana que explodia no Brasil no final dos anos 1950:

Marina, sucesso de Rocco Granata.

Mas eu não cantava o refrão.

Eu berrava.

“Marina, Marina, Marina… contigo eu quero casar!”

Ana “Menininha”, nossa secretária de assuntos domésticos, dizia, rindo, que eu ainda iria me casar com uma Marina, de tanto que pedia aos céus em forma de música.

E

não deu outra.

Dez anos depois conheci a minha Marina. Fiz a promessa — casaríamos em 10 de maio de 1975.

E foi exatamente o que aconteceu.

A foto mostra a verdade.

E, pensando bem, talvez a música nunca tenha sido apenas música.

Talvez tenha sido anúncio

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