Solto voz... nas estradas da vida

Entre aplausos, vaias e um copo da Coca-Cola”

Desde criança, lá em Miracema, carrego essa mania boa de cantar. Nunca fui — e reconheço sem drama — um grande cantor. Tentei carreira, não deu. Como também tentei no futebol profissional… e também não deu.

Sou músico de formação, vindo de banda, mas cantar… ah, cantar sempre foi minha praia. Sempre foi sonho.

E tive meus incentivadores. Amigos que acreditavam mais em mim do que eu mesmo — como o Thiara, sempre na pilha, ou o saudoso Bebeto Alvim, que certa vez montou um conjunto e decretou, sem consulta prévia:

— “Você não será pistonista… será nosso crooner.”

Gostei da ideia.

E isso me fez lembrar do Geraldo Brandão, o Mocinho, figuraça do rádio miracemense. Num daqueles programas de calouros no Jardim — com som espalhado pela praça — ele me chamou para cantar no Calouro Mirim.

Fui.

E não é que ganhei?

Primeiro lugar.

Prêmio: um belo copo da Coca-Cola.

Naquele dia, sem pestanejar, decidi: seria artista.

E todas as tardes, no quintal de casa, lá estava eu — cantando para quem quisesse ouvir o futuro astro da música brasileira.

(Spoiler: o astro não veio. Mas a história veio — e isso já vale muito.)

Festival da Canção

O tempo passou. O sonho não virou profissão. Cantei em algumas bandas — não sei se fiz sucesso, mas também nunca fui mandado embora por desagradar. Saía sempre por outro motivo: o futebol falava mais alto.

Queria ser jogador. Esse era o plano A.

Também não deu.

E hoje nem sei dizer se foi feliz ou infelizmente. Porque, no meio desse caminho, algo deu muito certo: foi cantando no Festival da Canção de Miracema, em 1970, que conheci Marina.

Cinco anos depois, nos casamos.

Se esse foi meu único troféu como cantor… então foi o maior possível.

Porque é com Marina que construí tudo o que realmente importa.

Se não brilhei nos palcos nem nos gramados, no palco da vida… ah, ali eu não decepcionei.

Madrid, Vaticano, Lisboa… e coragem

Anos depois, mundo afora, continuei com o mesmo vício: quando aparece oportunidade, solto a voz.

Em 2005, em Madrid, um violonista espanhol, tocando músicas brasileiras, me provocou:

— “Se você cantar Garota de Ipanema, eu pago a rodada de vinho.”

Cantei.

Agradei.

Mas o sujeito sumiu na hora de pagar.

E ainda fui eu que deixei a gorjeta.

Em 2008, no Vaticano, encarei um mexicano de gaita e acordeon, animando a fila da Capela Sistina. “O Sole Mio” não saiu completo, mas Cielito Lindo… saiu bonito.

E o mundo inteiro cantou junto.

Em Lisboa, 2015, inventei de cantar Amália Rodrigues.

Deu errado.

Desafinei sem cerimônia. O líder do grupo mudou a música no meio, recorri ao Google no celular e, com muita cara de pau, levei até o fim.

Porque cantar, meu amigo… também é isso: não ligar muito para o vexame.

Fiascos também fazem repertório

Nem só de aplausos vive esse currículo.

Na Praia do Jacaré, em Cabedelo, onde o fantástico Juarez do Sax brilha ao pôr do sol, tentei pegar o microfone.

O trio me ignorou solenemente.

Fiquei falando sozinho.

Mais um capítulo.

E o dia em que deu certo

Mas aí… teve Campos.

Tive a chance de cantar com Sérgio Fiuza, no Clube Saldanha da Gama.

E ali, inspirado no meu ídolo — o grande Dom Américo — mandei “Marina”, no estilo Gilberto Gil.

Afinado.

Direito.

Bonito.

Dei o recado.

Aposentadoria invicta (ou quase)

Depois disso, tive outra chance.

Recusei.

Semana passada, inclusive, ouvi meu amigo Dom Américo me chamando para cantar numa casa noturna. Fingi que não era comigo. Segui conversando com Zé Luis e Marina, como se nada estivesse acontecendo.

Porque existe uma regra não escrita:

quem já brilhou uma vez… precisa saber a hora de sair de cena.

E eu, modestamente, estou aposentado no auge.

Ou, pelo menos, é assim que eu conto a história.

Certo?

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