Uma volta no tempo
Crônica da Saudade
Há quem diga que recordar é coisa de velho. Pois eu digo que recordar é manter viva a chama daquilo que nos fez ser quem somos. E quando o amigo Erasmo resolveu listar os “Tipos Inesquecíveis”, mexeu não apenas com lembranças, mas com raízes profundas da nossa Miracema.
Vieram à tona figuras que moldaram minha infância: o Amaro Leitão, pai de amigos queridos; o velho Antenor Rego, sempre à beira do parquinho; o Briguelo, eletricista de mãos firmes e coração generoso, que aceitava meu café e minhas broas como se fossem presentes de rei. E, junto dele, o Bem da Sanfona, que me ensinou a gostar da música improvisada, aquela que nasce da alma.
No Triângulo da Saudade, eu quis ser alfaiate como Pepito, sapateiro como Deoclides, calmo como Seu Cícero. Mas nunca nervoso como o Caboclo, nem botafoguense como o Tetinho. Ali também aprendi com Seu Scilio, sempre ponderado, e com Neném Braga, fazendeiro de uma paciência santa.
Roque e Miguel Magaldi ainda vivem em minha memória. Roque me dava botões de sua capa, escondido, só porque gostava de meu avô Vicente. Miguel, com sua inteligência, alimentava minha paixão pelo rádio — paixão que hoje se transformou em saudade, já que os aparelhos não são mais como antes.
E como esquecer o Neguinho da gráfica, o tio Ary, o João Campanário com sua moedinha no bolso pequeno da calça? Ou o Pernoca, irmão do Erasmo, que me perseguia com pernas longas no futebol, enquanto eu escapava com a astúcia de um Homem-Aranha miracemense.
Nosso folclore também tem seus heróis: Cabo Atleta, guardião do pé de jambo; Maria Batuquinha, que me fez amar o caxambu; e Zé Faca, ídolo maior do carnaval. Três nomes, três histórias, três pedaços da alma da cidade.
E ainda havia os doutores, as professoras, os políticos de outrora — Ventura Lopes, Altivo Linhares, Jamil Cardoso, José de Carvalho — homens que amavam Miracema com honestidade rara. Havia também Manoel Catinga, Verônica, Rundunga, Paraoquena…
Uma especial referência ao inesquecível Dr. Ururaí Macedo, flautista que dividiu comigo duetos mágicos: ele na varanda, eu no quintal, sem ensaio, sem combinação, apenas música que brotava como se fosse destino.
Essas lembranças não são apenas minhas. São de todos nós que crescemos em Miracema, que aprendemos com os mais velhos, que brincamos nas ruas, que ouvimos histórias no bar do Vicente. Não é coisa de museu, não é coisa de velho. É coisa de vida.
E se hoje escrevo estas linhas, é para dizer: a memória é o maior patrimônio que temos. E enquanto houver quem se lembre, Miracema continuará viva, pulsando como uma sanfona improvisada, como uma flauta na varanda, como um rádio antigo que insiste em tocar.

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