A Primeira, e Única, Pinga de um Adolescent
A pinga do Mário Zulu
Chovia sem parar na Planície Goitacá. Era fim de ano, tempo de espera, de silêncio entre o Natal e o Ano Novo. Para mim, que já carregava algumas décadas de vivência esportiva, era apenas mais um recomeço.
A chuva me levou de volta a um campo enlameado, bola pesada, chuteiras encharcadas. Eu tinha dezesseis anos, talvez um pouco mais. Naquele tempo, Tupan, Esportivo e Miracema FC disputavam as glórias locais. Mas naquela tarde, o Estádio Municipal estava vazio: quem enfrentaria a tormenta para assistir a Esportivo x Paraíso, jogo sem importância, já que o Tupan havia levado o título?
O primeiro tempo foi nosso. O Esportivo vencia por 2x0, com Genuíno brilhando e o Paraíso resistindo bravamente. No intervalo, porém, veio a tentação. Liderados pelo goleiro Mário Zulu, nos escondemos no vestiário e bebemos “todas” — doses generosas da famosa Maravilhosa, cachaça vinda da fazenda de Homero Costa, considerada a melhor da região.
O corpo aquecido não sentiu o baque imediato. Mas logo o efeito apareceu. Eu fui o primeiro: caí no gramado vomitando, derrotado não pelo adversário, mas pela pinga. Gilson, filho do presidente, também não resistiu. Com apenas duas substituições permitidas, terminamos o jogo com nove em campo. O Paraíso virou e venceu por 4x2.
A partir daquele dia, o presidente Gérson Coimbra proibiu Zulu de levar sua garrafinha para o gol. Mas a proibição durou pouco. No clássico contra o Miracema, sem o “remédio”, Zulu tomou dois frangos antes do intervalo. Foi então que Gérson gritou: “Jaci, tá liberado o remédio do Zulu!”. E lá veio o Fota, pai do Orlando Fumaça, com a garrafinha disfarçada de guaraná. Viramos o jogo graças às maravilhosas: a cachaça e a atuação de Mário Zulu.
Eu, no entanto, nunca mais. Foram quatro doses, as primeiras e únicas da minha vida. O vexame, a dor no estômago, a vergonha de sair de campo embriagado me bastaram. Desde então, a pinga ficou apenas na lembrança — amarga, engraçada e única.

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