Fecami

 

Chegavam os anos 1970 e o futebol começava a ficar sério demais para mim. A música, apesar da alegria e do desejo quase ingênuo de estar nos palcos, foi ficando para trás.

O Festival da Canção de 1970 acabou sendo minha despedida daquela arte que até hoje me empolga e me provoca uma saudade quase física quando vejo fotos e conto as histórias daquele tempo de ouro.

O I Fecami — Festival da Canção de Miracema — me deu um troféu. Fui escolhido o melhor intérprete do evento. Cantei músicas de Fernando Nascimento, que me empurrou para esse universo musical, de Carlos Cerino, compositor da velha guarda que ali se revelou, e de Flávio Macedo, da jovem guarda, meu vizinho e amigo de infância.

Sucesso absoluto? Sei não.

Mas que foi bom… ah, isso foi.

No segundo festival voltei a cantar. Mas o grande prêmio daquela edição não foi troféu nem aplauso.

Foi Marina.

Ela fazia parte do back vocal da música de minha tia Marley — “Vento Traga João”. E o vento, caprichoso como só ele, acabou me trazendo a menina que cinco anos depois se tornaria minha esposa.

Despedi-me dos palcos. Fui tentar os gramados.

Bati à porta do Vasco da Gama em busca de sorte. A sorte não veio. Veio uma contusão no joelho. E, com ela, o fim da festa. Era hora de trabalhar, pensar na vida profissional. Futebol e música, naquele tempo, eram sonhos bonitos — mas arriscados demais para quem precisava construir futuro.

Ainda assim, foram anos bons demais.

Anos de amor e convivência com aquela que segue ao meu lado nos dias claros e nos nublados. Anos em que a música — especialmente a dos anos 70 — fazia dos grêmios estudantis, do GEAO, do Nossa Senhora das Graças e do GLERB, no Miracemense, os pontos mais iluminados da juventude da região.

Era ali que se dançava.

Era ali que se sonhava.

Era ali que a vida parecia caber inteira dentro de uma canção.

E eu, que deixei os palcos, nunca deixei a música sair de mim.

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