Surpresa em Franca do Imperador
Ave Esperança
Algum tempo atrás — não me peça o ano exato, porque memória boa não anda de calendário na mão — estive em Franca, interior de São Paulo, acompanhando o jogo entre Francana e São Paulo.
O grande José Maria de Aquino comentaria pela Rede Globo. Eu? Fui de acompanhante — e que acompanhante! Ali na cabine, ao lado do doutor e narrador de alto nível Osmar de Oliveira, numa manhã de domingo de calor respeitável. Mas nada que um caldo de cana bem tirado e um pastel honesto não resolvessem antes das onze, horário pouco cristão para começar um jogo.
Voltando 24 horas no tempo, chegamos ao Hotel Imperador perto do meio-dia. Depois de uma longa viagem na Veraneio da Globo — a famosa “Platinada” sobre rodas — confesso que me senti um superstar. Vinte e quatro horas convivendo com ídolos do jornalismo esportivo… aquilo para mim valia um troféu.
Gilson Ribeiro era o repórter que acompanhava o São Paulo. Os profissionais subiram. O amador aqui ficou na portaria. Música boa tocando na Rádio Franca do Imperador. E, naquele tempo, a Antártica ainda era puro malte — e, segundo os entendidos, feita com a melhor água, lá de Jaguariúna.
Foi então que aconteceu o inesperado.
De repente, começou a tocar Ave Esperança, de Marcos Sabino, no auge do sucesso.
Eu parei tudo. Para espanto do recepcionista e do garçom, comecei a cantar — alto, por sinal — ali mesmo no saguão do hotel.
Zé Maria desceu para o almoço e me encontrou ao telefone (sim, telefone fixo, porque nos anos 80 celular era coisa de ficção científica). Preocupado, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa na terrinha?
Sorri. Fiz sinal para que ele escutasse a música, já no final. O locutor anunciou o nome, o cantor, o autor… e disse que depois do intervalo conversaria com Marcos Sabino.
Tomei coragem e liguei para a rádio.
Disse ao locutor que aquela música havia vencido o Festival da Canção de Miracema meses antes, que eu fora o apresentador do evento e que conhecia o cantor desde os tempos em que frequentava nossa cidade, hospedado na casa de Joel Alvim e Tia Ricarda.
O locutor, animado, me colocou no ar.
Falei da música. Falei do Fecami. Falei de Miracema. Falei com aquele orgulho de quem carrega a cidade no peito.
Quando soube que eu estava acompanhado por Zé Maria, perguntou:
— Você também é da Globo?
Despedí-me sem confirmar nem negar.
Zé Maria e o doutor Osmar caíram na gargalhada. E o narrador, entre risos, decretou:
— Esse menino é dos meus.
Belas lembranças. Belos momentos.
E eu termino como gosto de terminar, olhando para o amigo e perguntando:
É mentira, Zé?

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