Futebol assim... nunca mais
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O RINK E A SELEÇÃO HÚNGARA
O primeiro tempo da seleção brasileira contra a Hungria, na última quarta-feira, me fez voltar no tempo — e bota tempo nisso.
Eu me vi sentado nas arquibancadas do Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros, em um domingo de sol quente, assistindo a um dos mais brilhantes times de futebol que vi atuar em minha vida.
O Rink, formado por jovens estudantes colegiais, tinha uma vocação para vencer incrível. Era raro o dia em que o time jogava mal ou perdia. Aliás, perder não era verbo conjugado por aqueles rapazes. Tanto que, no dia em que sofreram a primeira derrota, o time naufragou e jamais se reuniu outra vez — nem mesmo para uma despedida.
Claro que existem algumas exceções nas comparações. A zaga, por exemplo, formada por Alvinho e Márcio, era bem melhor do que a brasileira de Juan e Roque Jr. Enquanto os zagueiros do Rink exibiam talento e categoria, os veteranos da CBF multiplicavam as batidas de nossos corações a cada ataque húngaro.
O nosso Eduardo, goleiro galã e barbeiro nas horas vagas, tinha a mesma tranquilidade de Dida. Mas, cá pra nós — que ninguém nos ouça — o goleirão do Milan teve a felicidade de jogar em tempos modernos, quando a preparação de um arqueiro é superdetalhada.
Mas, sem nenhuma frescura de saudosismo ou bairrismo, ver jogar Juninho, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Luís Fabiano é quase a mesma coisa que ver Silvinho, Emanoel, Frederico e Braizinho.
Dois quartetos fenomenais.
A velocidade imposta pelos nossos jogadores naquela quarta-feira — que chegou a impressionar Parreira — era a mesma que o gordo Chiquinho Maracanã exigia dos garotos miracemenses.
O talento de Ronaldinho, guardadas as devidas proporções, lembra o de Braizinho, que jogava ao estilo de Tostão: toques rápidos, inteligentes e sempre buscando o gol.
Edmilson ou Marconi?
Sem dúvida alguma, o nosso pistonista era um volante clássico, bem ao estilo Falcão. Elegante, falastrão e dono de uma habilidade incrível para carregar o piano do time de Chiquinho Maracanã.
Marconi chegou a passar pelo Palmeiras, mas preferiu ganhar dinheiro com vendas e deixou o futebol. Sua perfeição com os pés era a mesma que exibia nas noites em que soprava seu trompete de som mavioso.
Lembro-me bem do jogo Rink x Olaria, que trazia Nelson e Murilo, ambos vendidos ao Flamengo meses depois.
Braizinho simplesmente arrasou o time carioca.
Um futebol de tanta velocidade e com uma objetividade tão impressionante que o treinador Bariri não pensou duas vezes: colocou dois homens para marcar o pequenino “diabo”.
Você pode até me dizer que Ronaldinho Gaúcho é o verdadeiro fenômeno.
Concordo.
Mas eu seria louco se afirmasse tudo isso se não acreditasse que esta história é a verdade de um cronista apaixonado pelo futebol requintado — e não apenas uma gaiatice de um contista ficcionista.
Frederico, Emanoel e Silvinho completavam aquele quarteto com um sincronismo tão perfeito que os torcedores, que sempre lotavam o Municipal, pareciam não acreditar no que viam.
Ficavam tão incrédulos quanto eu fiquei vendo nossa seleção contra a Hungria, perfeita em todas as linhas naquele primeiro tempo fantástico — principalmente pela volúpia de buscar o gol adversário.
Se Juninho tem a facilidade de distribuir bolas em velocidade, Emanoel também tinha. As jogadas com Frederico, pela direita, quase sempre terminavam em perigo de gol ou com a bola no fundo das redes.
Silvinho, um dos maiores meias do nosso futebol, era talento nato. Suas enfiadas de bola, em diagonal ou em profundidade, raramente eram interceptadas — assim como as bolas colocadas por Kaká, sempre para frente, sempre procurando o gol.
Muitos de vocês têm saudades do bom jogo de bola — das partidas disputadas com lealdade, inteligência e sem placares em branco provocados por retrancas ridículas ou esquemas que impedem nossos jogadores de desenvolver um espetáculo de alto nível.
Os mais vividos podem até trocar este Rink por outro time qualquer. Tenho certeza de que algum torcedor alvianil da Rua do Gás dirá que tal time, com tal jogador, foi melhor que o meu Rink.
Outros dirão que o Americano, do eneacampeonato, tinha mais qualidade. Ou que o Rio Branco de tal ano se assemelhava ao time dos rapazes de Miracema.
Concordo plenamente.
Naqueles anos 60, o futebol era jogado com amor à camisa, desprovido de tudo aquilo que hoje vemos quando a bola rola nos gramados dos tempos modernos.
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