Coisa de louco... Um papo inusitado
Conversa com Estádio Municipal de Miracema
Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando de você… falando com você. E, mais do que isso, conversando contigo — você que, durante tantos anos, me deu um punhado de alegrias.
Tristeza? Não. Nunca fiquei triste ao lado desse velho moço, que agora veste roupa nova e se comporta como se tivesse voltado a ter poucos meses de vida.
Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, sonhando que um dia seria famoso, jogador de um grande time brasileiro… Quanta ilusão. Você não respondia. Ficava calado. Mas o seu silêncio… ah, o seu silêncio já sabia de tudo.
Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho — que cracaço! —, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo. Viu nascer a geração do Rink, liderada pelo incrível — e folclórico — Chiquinho Maracanã. Viu o Tupan ganhar vida, com meu velho pai, Zebinho, jogando ao lado de figuras como Olavo Cueca, Noqueta… gente daquelas gerações que faziam o futebol parecer coisa de outro mundo.
E viu também esse pequeno e teimoso artilheiro sonhar alto demais.
Acertou, meu camarada… Futebol, pra mim, foi coisa séria até o início dos anos 70. Depois disso, virou luta — pela sobrevivência, pela vida, pela felicidade em outros campos.
É… você está velho. Ninguém nunca revelou sua idade — talvez o José Maria de Aquino saiba —, mas o tempo te fez bem. Muitos daqueles craques já se foram… e você segue aí, de pé, firme como um touro, despertando em tanta gente o desejo de te renovar, de te dar novos ares.
Você é um privilegiado. Viu jogadores que, hoje, seriam chamados de fenômenos. Lembra do Silvinho? Do Braizinho? Do Frederico, do Edil, do Ademir, do Júlio, do Chiquinho?
E o Vasquinho? Aquele time criado pelos fanáticos Edson e Clarindo… Claro que você lembra. Eles brilharam numa época em que o futebol brasileiro tinha nomes como Garrincha, Pelé, Zico, Rivelino… Por isso mesmo, ficaram por aqui, fazendo história no nosso chão.
Ali em cima, na laje dos vestiários, começamos a conversar contigo pelo rádio. A Princesinha não foi a primeira — o Clóvis Helsinque já tinha feito isso antes, com a turma da Rádio Emissora de Miracema —, mas falar pra toda a região… acho que fomos nós: eu, Zé Luís da Silva, Chico David, Fernando Nascimento, Paulo Joel e Wellington Ronzê.
Depois vieram outros… mas te levar a um estrelato inimaginável? Ah, meu amigo… duvido que alguém tenha feito mais do que a nossa equipe. Promovemos eventos, lotamos suas arquibancadas, fizemos história com a Copa Noroeste.
Saudade? Claro que dá. E tenho certeza de que você também sente.
Hoje, só de lembrar, já me emociono. Esse gramado… que um dia foi destruído por uma Exposição Agropecuária, lá em 64 — uma revolução! Naquele tempo, o Campo do América não dava conta, o Ferradurão nem existia ainda… e a turma do Bitico brigou feio. Mas o seu Jamil Cardoso estava bem-intencionado. E a exposição… virou sucesso.
O tempo é cruel, meu caro.
Quando saí daqui, em 85, achei que tinha plantado uma semente pra ver o futebol florescer de novo. Mas o Maninho se foi… e com ele, muitas esperanças.
Ainda assim, ninguém tira da memória aquele espetáculo dos anos 60: o Flamengo vindo aqui com seu juvenil brilhante — Gerson, Beirute, Germano ainda garotos — enfrentando uma seleção miracemense liderada pelo fantástico Ademir Menezes, artilheiro da Copa de 50. Tudo isso graças ao Jofre Salim, que nos presenteou com esse momento mágico.
E quantas histórias…
O Polaca, por exemplo… ah, o Polaca! Talvez o maior futeboleiro da cidade. Merecia um busto logo na entrada. Não pela técnica — embora tivesse —, mas pelo amor ao futebol, pelo amor ao Miracema FC. Na memória de todos nós, ele é eterno.
Aí você me provoca… pergunta quais foram os melhores que vi por aqui.
E eu respondo… ou melhor, quase respondo.
Porque, naquele instante, parecia que eu ouvia sua voz — saindo do fundo desse velho/novo coração:
— Tem gente demais boa nessa história… Se eu citar alguns, cometo injustiça com outros. E como encarar depois, lá em cima, quem ficou de fora?
Tá certo, meu amigo… você tem razão.
Mas eu ainda sonho com o dia em que todos eles estarão ali, na galeria de fotos, logo na entrada — eternizados como merecem.
Agora vou indo… já é tarde.
Daqui a pouco chega gente e vão achar que enlouqueci de vez. Alguns já acham… mas, se me virem conversando contigo, aí não tem mais defesa.
Um abraço, meu velho e bom amigo: o Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros.
Eu pensava que estava falando sozinho…
…quando ouvi um sussurro:
— Vá com Deus, Penacho.
Aí, meu caro…
eu chorei.

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