No balanço veneziano
Alguém oferece a alguém… tempo bom.
Na noite passada recebi a visita do
amigo — e vizinho — Marco Aurélio Motta.Optamos pelo óbvio: boa música.
Daquelas dos tempos de “pé de valsa” e das grandes noitadas de sábado.
Eu, no Grêmio do Nossa Senhora das Graças.
Ele, nos salões do Automóvel Clube Fluminense.
Mas, no fundo, éramos iguais no repertório: The Beatles, Elvis Presley, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis… e tantos outros nomes que embalaram os anos 70.
Mas… tem sempre um porém.
Antes disso tudo, havia um sonho.
Um daqueles que “pousavam” em Miracema lá pelos anos 60.
Tenho, até hoje, no Spotify, uma playlist que volta e meia coloco pra rodar:
“Músicas de Parque de Diversões”.
E sabe por quê?
Porque uma das minhas primeiras atividades pra ganhar um trocado — dinheiro pro cinema e pras noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV — era trabalhar nas cabines de música dos parques.
Eles montavam seus brinquedos e barracas na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha.
Ali era meu palco.
Eu ganhava umas pratinhas — coisa de um cruzeiro por música — e ficava com a metade.
Mas o melhor não era o dinheiro.
Eram os anúncios.
Os clássicos bordões que você já ouviu alguma vez na vida:
“Alguém oferece à menina de vestido verde, que está no Balanço Veneziano…”
E lá ia a música — Adilson Ramos cantando “Sonhar Contigo”.
E a menina, claro, começava a procurar quem tinha feito a dedicatória.
Eu levava meus próprios discos. Tinha repertório e bom gosto — modéstia à parte.
Nelson Gonçalves era campeão de pedidos.
E foi com ele que protagonizei uma das histórias mais bonitas.
(Nomes fictícios, claro.)
Antônio oferece a Maria, como prova de amor.
E eu mando “Negue”.
A moça foi até a cabine, quis saber quem era.
Apontei.
Veio abraço, veio beijo… e depois me contaram: nunca mais se separaram.
Olha a responsabilidade…
Mas nem só de romance vivia a cabine.
Teve um dia memorável.
Eu, na terceira série do ginásio.
Prova de Geografia acontecendo… e eu trabalhando ali na frente, na cabine.
A professora, Nerilda Alves, estava chegando ao colégio.
Não pensei duas vezes.
Soltei no microfone:
“Um aluno, que não pôde fazer a prova de Geografia por estar trabalhando, oferece à professora Nerilda Alves, como prova de respeito e admiração…”
E mandei a preferida dela:
Dolores Duran cantando “A Noite do Meu Bem”.
Se ela gostou, não sei.
Mas que ela entendeu o recado… ah, isso entendeu.
Na semana seguinte, fiz a prova.
E — sem mais comentários — veio um dez redondo.
A cabine também era ponto de encontro.
Passava gente pedindo dica, pedindo música, pedindo ajuda…
E lá desfilavam vozes como Moacyr Franco, Paulo Sérgio, Antônio Marcos, Waldick Soriano, Lindomar Castilho, Nilson César — com sua eterna “Namorada que Sonhei” —, Agnaldo Timóteo com seus “Verdes Campos”, Altemar Dutra e sua “Andorinha”, Reginaldo Rossi com o inesquecível “Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme”…
E, claro… muito, mas muito Roberto Carlos.
O verdadeiro rei dos parques de diversões.

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