O adeus da Mulinha Famosa

                          Domingo de Carnaval

Na sexta-feira, logo após o treino do Operário, Nenenzinho vestia sua fantasia surrada, calçava os sapatos velhos e ajeitava os apetrechos da “mulinha” em seu pequeno corpo. Estava pronto para cinco dias de folia, que começavam às dezoito horas e só terminavam na manhã da quarta-feira de cinzas.

Ponta-direita habilidoso, goleador apesar do tamanho, Neném era figura folclórica. Mignon, como o apelido sugeria, corria pelas laterais do gramado, driblava em velocidade, cruzava certeiro para Careca marcar. O grito “entra Careca, vamos fazer Neném” ainda ecoa na memória.

Mas fora do campo, a vida era dura. Barbeiro por profissão, o vício do álcool o afastava da navalha e da tesoura, mas não da bola nem do carnaval. Educado, querido por todos, nunca ousava sentar-se à mesa sem convite. Sua presença era sempre bem-vinda, sua figura adorada pela comunidade.

Na terça-feira gorda, último dia de folia, o Bloco do Fogaréu preparava a tradicional pelada das “piranhas”. Neném não apareceu. Chegou mais tarde, preocupado, trazendo um bilhete:
— “Olha gente. Estou no fim. Hoje pode ser o meu último carnaval. Minha última pelada foi na semana passada. Cuidem de minha alma melhor do que cuidei do meu corpo. Se eu morrer, me ponham no carro alegórico e desfilem por toda a cidade. Um abraço do Francisco (Neném).”

E assim foi feito. Nenenzinho não resistiu. O final do carnaval foi seu velório, transformado em desfile pelas ruas, no ritmo de marchinhas e sambas, com o povo gritando e aplaudindo. “Vamos fazer Neném” tornou-se frase única, jamais repetida.

Ficou a saudade do Francisco e de um verdadeiro carnaval, ambos ausentes da nossa terra, ambos fazendo uma falta danada. Feliz carnaval para todos que ainda apreciam uma “Mulinha”, um “Bloco de Embalo”, um “Palhaço” — verdadeiros expoentes de qualquer folia que se preze.



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