O Bar do Vovô
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
O Bar do Vicente — O Ponto Nervoso da Cidade
Um dia, na nossa Praça Dona Ermelinda — ali no que chamo de “Triângulo das Bermudas” — um amigo me perguntou:
— Adilson, como você sabe tanto da história de Miracema e de sua gente?
A resposta é simples.
Minha infância e juventude foram vividas dentro do reduto político e jurídico da cidade. Fui criado na Praça Ary Parreiras, 174, onde funcionava o Bar do Vicente Dutra.
— Muita gente nova não conhece o Vicente Dutra — disse ele. — Você precisa explicar isso na sua coluna.
Pois bem.
Ali passaram figuras ilustres da cidade. Como já contei, Altivo Mendes Linhares, um dos ícones cuja história se confunde com a de Miracema, era presença constante. Na sinuca do vovô, fazendeiros, empresários, comerciantes e boa parte da sociedade miracemense faziam ponto diariamente.
Era um lugar decente.
Não havia confusão. Lembro-me apenas de uma briga generalizada, que começou numa das mesas e terminou lá fora. Nenhuma cadeira foi quebrada. Até os mais exaltados respeitavam Vicente Dutra e família.
Em frente ao bar funcionavam Prefeitura e Fórum. Era o centro nervoso do município. O balcão virava tribuna informal.
Ninico Moreira — Antônio Carlos Moreira — homem público de enorme importância, era frequentador assíduo. Ouvi muitas de suas conversas políticas enquanto servia cafezinho, tentando absorver cada palavra.
Aos domingos, depois da missa, minha caixa de engraxate trabalhava firme. Fazendeiros como Clóvis Tostes, Evaldo Assumpção e Cid Assumpção eram fregueses. Seu Altamiro Soares contava histórias de viagens, inclusive da Copa de 1966, na Inglaterra.
Prefeitos, vereadores, juízes e advogados transformavam o bar em sala de reunião improvisada. José Danir Siqueira, quando vinha à cidade, parava ali. José de Carvalho, Jamil Cardoso, Altivo Linhares, Salim Bou-Issa — todos amigos de meu avô Vicente e de meu pai, Zebinho. Jairo Tostes nos chamava de primos.
Às vezes, reuniões aconteciam na varanda.
José de Carvalho e Salim tinham o mesmo secretário de gabinete: Télio Mercante, o Ferrugem, temido comedor de bombocados. Ao lado do irmão Joel, o Vandinho, eram ameaça constante às travessas de doces — que meu avô tratava de esconder.
E ainda faltam histórias.
E os padres holandeses? Alberto, Luiz, Antônio e André eram amigos de minha avó Maria e frequentadores da nossa cozinha para “filar” um almoço ou um quitute.
A vizinhança era de alto nível humano. Alguns não frequentavam o bar, mas eram clientes fiéis dos salgados, doces, refrigerantes e cervejas para o fim de semana.
Nenê Braga passava diariamente após o serviço na fazenda para um traçado servido em copo especial. Deoclides Correia, o sapateiro-mor, também. Washington Torres, Fisíco, Jorge Pela Égua e os funcionários da retífica faziam parte do cenário.
E eu?
Eu ouvia.
Guardava.
Aprendia.
Se hoje sei contar a história de Miracema, é porque cresci ouvindo a cidade falar dentro do Bar do Vicente.
E essa história ainda não terminou.
Volto na próxima.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário