A capa que Salvou a Noite (e a Pauta)
O Cenário: Caio Martins sob Tempestade
Esta história aconteceu no Estádio Caio Martins, em Niterói, numa quarta-feira que ficou marcada na memória do futebol fluminense: Flamengo 0 x 1 Americano, pelo Estadual da Primeira Divisão. Estava um "toró" inesquecível — bota chuva nisto! O gramado estava em péssimo estado e os repórteres pareciam verdadeiros pintos molhados.
O Figurino Polêmico
Eu, que antes do jogo já previa o que os meteorologistas anunciavam, cheguei preparado, mas fui logo sacaneado e zoado por todos os companheiros. Eu estava trajando uma roupa de motoqueiro: aquele macacão de napa colado ao corpo, boné de couro na cabeça e um par de galochas bem de acordo com a tempestade.
Sempre viajei com uma mochila com esses acessórios de chuva, pois era complicado usar guarda-chuva na beira do gramado. No início, como os companheiros (principalmente os das emissoras cariocas) debochavam de mim chamando-me de "urubu", resolvi guardar tudo na mochila e fui para o gramado "à paisana" quando a chuva deu uma trégua.
O Retorno do "Urubu" e o Lance Decisivo
Lá pelos 35 ou 40 minutos do primeiro tempo, a chuva voltou a cair com força total. Foi aí que decidi: ignorei as piadas e me vesti novamente de "urubu". Lá fui eu: microfone na mão, fone no ouvido, boné de couro, roupa de napa e galocha.
Enquanto a água descia, o jogo se decidia. Amarildo, o ponta-direita veloz do Americano, arriscou um chute e a bola acabou entrando num "frango" histórico de Cantareli. O placar estava selado: 1 a 0 para o time de Campos.
O Único Homem Seco no Gramado
E, para resumir o assunto: sabe quem foi o único no gramado com condições de entrevistar o artilheiro do jogo? Eu. Sabe quem foi o único a conversar com os dois treinadores? Eu. A situação foi tão inusitada que acabei sendo usado pela Globo e pela Nacional para falar com os jogadores do Flamengo. Eu, que antes era o alvo do deboche de todos os meus companheiros, era agora o único canal de comunicação que não estava encharcado.
O Grand Finale no Restaurante
O desfecho aconteceu durante o jantar em um restaurante chique na antiga capital (Niterói). Sabe quem estava por lá todo enxuto, com tênis seco, camisa impecavelmente limpa e calça sem molhar? Este locutor que vos fala.
Enquanto isso, os jogadores do Americano aproveitavam para zoar os repórteres das emissoras de Campos, perguntando por que eles não se sentavam à mesa para jantar. E sabem por que não foram? Estavam molhados, sujos e sem a mínima condição de entrar em um restaurante daquele nível.
Moral da história: O macacão não só resolveu a pauta daquela zebra histórica, como garantiu o meu jantar com a dignidade que só um repórter prevenido poderia ter.
Relato de um Locutor Esportivo Partida: Flamengo 0 x 1 Americano Local: Estádio Caio Martins, Niterói

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