Uma volta no tempo

 

                         O Prédio da Prefeitura 

Li em algum lugar, talvez no Facebook, que o antigo prédio da Prefeitura necessita de uma reforma urgente. O lamentável estado de abandono, segundo minha fonte, pode fazer com que mais um laço do nosso passado se perca, como aconteceu com a Fonte Luminosa — o quase oficial cartão-postal da cidade.

Ao lembrar daquele prédio, mergulho no passado. Minha vida começou por ali; inclusive a profissional. Meu primeiro dinheirinho, ganho com suor, foi servindo café nas reuniões da Câmara, datilografando para magistrados e servindo de office-boy para os cartórios.

Os personagens que habitavam aquele edifício histórico desfilam na minha memória. Dona Yone Magacho, a bibliotecária que me deu dicas preciosas de leitura. Foi na Biblioteca Municipal que li sobre as capitais da Europa e os instrumentos musicais — sentem que o gosto pelas viagens e pela música vem de longe, com ajuda providencial?

Quem viveu naquele pedaço de Miracema não se esquece do Zezinho, da Prefeitura — figura doce e zelosa com os impostos municipais. Dona Cibele, nossa "prefeita eterna", ditando ordens com elegância. Dona Santa, fiel escudeira do Capitão Altivo. E os irmãos Olavo e Jorge Monteiro, funcionários que deram um toque de seriedade inquestionável ao lugar.

Ali, assisti a reuniões da Câmara que, invariavelmente, terminavam no cafezinho do Bar do Vicente, logo em frente. Antonio Laureano Pereira, Eudóxio, Nilo Ronzê, Armando Azevedo, Jofre Salim, Marcos Faver, e os professores Felicíssimo e "Ferrugem" Mercante. Eram homens que representavam o povo por puro amor; não recebiam nada para ocupar as cadeiras do plenário, que também servia de Salão Nobre para os júris da comarca.

Como esquecer os famosos júris? Servindo café, fiquei atento a debates brilhantes com advogados famosos como José Danir Siqueira e até o lendário Tenório Cavalcante, de Duque de Caxias. Oradores como Ronaldo Linhares e Ururaí Macedo escreveram seus nomes naquelas tribunas.

Para ilustrar este nosso final de papo, lembro-me de um embate entre situação e oposição sobre reformas nas estradas de Venda das Flores. A briga estava feia. Saí dali e disse ao meu avô, Vicente Dutra: — O bicho está pegando lá na Câmara! O Seu Nilo Lomba quer fazer a obra e estão atrapalhando.

Meu avô, com a calma de quem já viu de tudo, me disse: — Espera um pouco. Daqui a pouco eles descem e resolvem tudo na boa conversa aqui no bar. Fique de olho.

Dito e feito. Em poucos minutos, desceram o prefeito Nilo Lomba, Nilo Ronzê e Antonio Laureano. Políticos sérios. — Nilo, vamos atrapalhar o Laureano lá em Flores? O que vocês estão pedindo? — indagou o prefeito. — Prefeito — respondeu Laureano — não quero atrapalhar. Só peço que, ao alugar as máquinas para Flores, estenda o serviço a Paraíso de Tobias, que carece de reforma para escoar o arroz e o leite.

Em dois minutos, entre dois dedos de prosa e um aperto de mão, a questão se resolveu. Sem "molhar a mão" de ninguém, sem acordos escusos, apenas visando o bem da comunidade.

Bons tempos. Gente maravilhosa que servia a Miracema sem pensar no lado pessoal ou financeiro. Grandes homens que fizeram a história da nossa terra. E é com essa lembrança de integridade e amizade que selo este centenário de histórias.

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