O Rink E.C
Na tela da tevê, o jogo corria solto. Alguns bebuns nem sequer espiavam o que rolava em Budapeste. Naquele momento, as atenções estavam divididas entre a nova seleção brasileira e as pingas e “louras geladas” servidas pelo nosso Papa, dono do Vaticano’s Bar.
Eu, Motta e alguns parceiros — aposentados e pensionistas — permanecíamos grudados no futebol. Disfarçávamos pedindo um salgado e um refrigerante, afinal, três da tarde não era exatamente um horário propício para cerveja ou qualquer outro similar etílico.
Enquanto a bola rolava lá pela Europa, por aqui as comparações já estavam na mesa do nosso boteco favorito. Motta, atento, traçava paralelos entre aquela seleção e o Flamengo — aquele timaço campeão do mundo. Do outro canto do Vaticano’s, alguém berrou:
— Esse time é a cópia do meu Tricolor, a máquina do Horta!
Mas, como eu e Solon éramos maioria miracemense no reduto, chegamos à nossa própria conclusão.
O primeiro tempo da seleção brasileira contra a Hungria, na última quarta-feira, me fez voltar no tempo — e bota tempo nisso. Eu me vi sentado nas arquibancadas do Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros, em um domingo de sol quente, assistindo a um dos times mais brilhantes que já vi jogar.
O Rink.
Formado por jovens estudantes colegiais, o time tinha uma vocação impressionante para vencer. Era raro jogar mal — perder, então, nem se conjugava naquele grupo. Tanto que, no dia em que sofreram a primeira derrota, o time simplesmente naufragou e jamais voltou a se reunir. Nem para uma despedida.
Claro que existem exceções. A zaga, por exemplo, formada por Alvinho e Márcio, era superior à brasileira de então, com Juan e Roque Jr. Enquanto os zagueiros do Rink exibiam talento e categoria, os veteranos da CBF faziam nossos corações dispararem a cada ataque húngaro.
O nosso Eduardo — goleiro galã e barbeiro nas horas vagas — tinha a mesma tranquilidade de Dida. Mas, cá pra nós, que ninguém nos ouça: o goleiraço do Milan teve a felicidade de jogar em tempos modernos, quando a preparação de um arqueiro é minuciosa.
Ainda assim, sem qualquer saudosismo barato ou bairrismo exagerado, ver jogar Juninho, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Luís Fabiano era como assistir a Silvinho, Emanuel, Frederico e Braizinho. Dois quartetos fenomenais.
A velocidade da seleção naquela quarta-feira, que chegou a impressionar Parreira, era a mesma exigida pelo gordo Chiquinho Maracanã dos garotos miracemenses. E o talento de Ronaldinho, guardadas as proporções, lembrava Braizinho — jogando ao estilo Tostão: toques rápidos, inteligência e faro de gol.
Edmílson ou Marconi?
Sem dúvida, o nosso pistonista era um volante clássico, à moda de Falcão. Elegante, falastrão, dono de uma habilidade incrível para carregar o piano do time de Chiquinho Maracanã. Marconi chegou a passar pelo Palmeiras, mas preferiu a segurança das vendas ao futebol. Nos pés, perfeição; nas noites, encantava soprando seu trompete de som mavioso.
Lembro-me bem do jogo entre Rink e Olaria, que tinha Nelson e Murilo — ambos vendidos ao Flamengo meses depois. Braizinho simplesmente arrasou o time carioca. Um futebol veloz e objetivo, que obrigou o treinador Bariri a colocar dois marcadores no pequeno “diabo”.
Você pode dizer — e eu concordo — que Ronaldinho Gaúcho é um fenômeno. Mas eu seria louco se escrevesse tudo isso sem acreditar que essa história é verdadeira. É a memória de um cronista apaixonado pelo futebol bem jogado, não a invenção de um contista.
Frederico, Emanuel e Silvinho completavam o quarteto com um sincronismo impressionante. O estádio, sempre cheio, assistia incrédulo — assim como eu fiquei vendo a seleção contra a Hungria: perfeita em todos os setores naquele primeiro tempo, movida por uma fome insaciável de gol.
Se Juninho distribuía bolas com velocidade, Emanuel fazia o mesmo. As jogadas com Frederico pela direita quase sempre terminavam em perigo ou em gol. E Silvinho, um dos maiores meias do nosso futebol, era talento puro: passes em diagonal, enfiadas precisas, quase nunca interceptadas — como as de Kaká, sempre em direção ao gol.
Muitos de vocês sentem saudade do futebol bem jogado — das partidas leais, inteligentes, sem retrancas covardes ou esquemas que engessam o espetáculo. Os mais vividos podem trocar o Rink por qualquer outro time de memória afetiva.
Um torcedor alvianil da Rua do Gás talvez diga que aquele time tal foi melhor. Outros lembrarão do Americano ou do Rio Branco de determinado ano. E eu concordo com todos.
Porque, nos anos 60, o futebol era jogado com amor à camisa — livre de tudo isso que hoje, tantas vezes, aprisiona a beleza do jogo.

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