Papo com Lobo

 Meu eterno guru, mestre dos jornalistas brasileiros, José Maria de Aquino, certa vez me contou uma passagem que nunca mais saiu da minha cabeça. Era sobre um repórter da TV Record, Tom Barbosa, e o capitão da seleção brasileira bicampeã mundial no Copa do Mundo FIFA de 1962.




Antes de chegar à minha história, vale ouvir o “causo” do Zé Maria, contado por ele mesmo:

“Mauro Ramos de Oliveira era um zagueiro elegante dentro e fora de campo. Jogando, tirava a bola sem praticamente tocar no adversário. Fora dele, desfilava ternos sob medida de Minelli, o mais famoso — e caro — alfaiate de uma São Paulo que ainda se vestia como um ritual.

Era tão elegante que ganhou o apelido de Marta Rocha. E fugia completamente do molde tradicional dos boleiros.

Numa tarde de clássico, com o Estádio do Pacaembu lotado, Tom Barbosa, sem ter muito o que perguntar, mandou o genérico:

— Capitão, quais as novidades?

Mauro respondeu:

— Estou lendo e adorando Pequenos Burgueses, de Maxim Gorki…

E seguiu, com detalhes da obra, personagens, conflitos…

Sem ação, o repórter encerrou:

— É com você, Raul Tabajara.”

Uma aula. E um recado silencioso: às vezes, o entrevistado está mais preparado que o entrevistador.

Pois bem.

Anos depois, vivi algo que essa história sempre me faz lembrar.

Era um domingo qualquer, fim dos anos 80, no Estádio Ary de Oliveira e Souza — o nosso Arizão. Entrei na jornada esportiva da Rádio Cidade por volta das duas da tarde e segui o ritual de sempre: vestiário do visitante, escalações, bastidores.

O jogo? Goytacaz Futebol Clube x Bangu Atlético Clube, brigando ali por espaço no Carioca.

E então eu vi.

Sentado à beira do gramado, olhando para o nada — ou talvez para tudo — estava Mário Jorge Lobo Zagallo. O Velho Lobo. Campeão do mundo. Pensativo, distante do jogo dos juniores que rolava.

Confesso: travei por um segundo.

Mas repórter que é repórter não pode perder o timing.

E sem saber exatamente o que perguntar — talvez influenciado lá no fundo pela história do Mauro Ramos — arrisquei:

— O que pensa um treinador campeão do mundo ao ver garotos de Goytacaz e Bangu jogando? Isso traz lembranças das peladas na Tijuca… quando nós tentávamos te convencer que também tínhamos bola pra jogar no Flamengo?

Eu falei “nós”. Na cara dura.

Zagallo se assustou. Me olhou. Quis saber quem eu era — e como sabia daquilo.

Expliquei. Falei da vila, da rua sem calçamento, paralela à José Higino. Das peladas. Da molecada. E dele ali, às vezes, assistindo.

Pronto.

Era a senha.

O Velho Lobo voltou no tempo.

E o que era pra ser uma pergunta virou mais de meia hora de conversa. Daquelas que não cabem em pauta, não seguem roteiro, não se repetem. Só interrompidas pelos comerciais, com a sensibilidade do Luiz Paulo Ribeiro, que percebeu: ali estava acontecendo algo especial.

Sem dúvida, a melhor entrevista que fiz em quase quarenta anos de estrada.

Mas a vida ainda guardava um bônus.

Meses depois, em um shopping em São Paulo, caminhando com o próprio Zé Maria, quem aparece no mesmo corredor?

Zagallo. Com dona Alcina.

Abraços. Sorrisos. E então ele vira para a esposa e diz:

— Esse aqui é o repórter de quem te falei. Aquele de Campos… que me fez chorar falando das crianças e da nossa casa na Tijuca.

Me diz você…

Tem preço?

Hoje, o jornalismo mudou. Os grandes nomes do esporte falam por assessores, coletivas, respostas ensaiadas. Tudo muito correto. Tudo muito distante.

Uma pena.

Porque certas entrevistas… não se fazem.

Acontecem.

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