Picolé do Abdo

Toda grande história começa com um grande personagem. E, desta vez, o personagem não sou eu.

É o libanês Abdo Eid-Nassar, ou simplesmente o nosso Seu Ábdo, dono das melhores receitas de picolé e sorvete que Miracema já viu — e, mais importante ainda, já saboreou. Foram, penso eu, mais de trinta anos de sucesso, trabalho duro e dedicação de toda a família.

Minha memória até que é boa, mas pode falhar em algum detalhe desta história. Antes de se tornar a famosa Sorveteria Miracema, aquela que funcionava em frente ao Bar Pracinha e ao lado do Bar Central — primeiro do Vavate e depois do Zé Careca — tudo começou como Picolé Sibéria, na esquina da Marechal Floriano com Barroso de Carvalho, a rua do Aero Clube.

E que picolé.

O sabor inconfundível do Picolé Sibéria foi conquistando fregueses e, naturalmente, ampliando os sonhos do Seu Ábdo. Logo veio a ideia de um lugar maior, onde pudesse fabricar seus sorvetes e ter também uma cozinha digna para preparar os quibes e o homus que começaram a dominar as vendas daquele bar-sorveteria.

Sempre tive o carinho e o respeito desse homem gentil. Talvez por eu ser patrício de Neffá El-Koury, meu patrão durante oito anos e companheiro frequente das noites na sorveteria. Ali, muitas vezes, saboreávamos os quibes do Seu Ábdo e uma cerveja bem gelada, sempre muito bem atendidos pelo fiel escudeiro da casa, Durval Bastos, meu velho companheiro dos campos de futebol.

Mas toda sorveteria tem sua estrela.

E, no caso da Sorveteria Miracema, ela tinha nome curioso e sabor inesquecível: a famosa “Vaca Preta”.

Nada mais era do que um sorvete — de coco ou chocolate — misturado com Coca-Cola, servido numa taça elegante e firme. Havia também a “Vaca Amarela”, feita com sorvete de creme ou coco e guaraná.

Delícias quase obrigatórias para as meninas que saíam da sessão das seis do Cine XV. Era parte do ritual da juventude miracemense.

Hoje, vez ou outra, preparo minhas próprias Vacas Pretas aqui em casa. E é inevitável: enquanto o sorvete encontra o refrigerante no copo, me vem à memória a figura doce do Seu Ábdo.

Durante muitos anos ele nos ofereceu sorvetes de alto nível e um quibe que — justiça seja feita — talvez não tenha sido o melhor que já comi pelo mundo…

Mas, sem dúvida alguma, está entre os três melhores da minha memória.

E memória, como todo mundo sabe, também tem sabor.



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